TBT#07 – O Que Vocês Fizeram Com Solange?

Um ótimo giallo fora dos padrões


Para quem já tem certo conhecimento do cinema de horror e suas vertentes – e acompanha aqui o 101HM – sabe que os anos 70 foi um período prolífico para as produções italianas e suas pérolas cinematográficas. Suspiria, Mansão da Morte, Zumbi 2 – A Volta dos Mortos e Prelúdio Para Matar são apenas alguns dos clássicos lançados nesta década de ouro para a turma spaghetti, mas por conta de tanto filme lançado, alguns infelizmente se perderam em meio à tantas obras.

A partir dos 70’s, os italianos tinham duas manias peculiares: a primeira era realizar adaptações de todos os grandes filmes lançados na terra do tio Sam – os chamados mockbusters. A segunda era que praticamente todos os diretores faziam filmes na mesma época e com a mesma temática, comum até que eles participassem e colaborassem com a obra de seus companheiros e assim a roda girava.

Nesta década com certeza se prevaleceu e popularizou os gialli, clássicos filmes que possuíam elementos de suspense e thriller, porém mais violentos. Como citei acima, os italianos estavam em anos iluminados e filmes atrás de filmes eram lançados, uns ótimos e outros nem tanto. Este boom fez com que algumas películas fossem esquecidas ou deixadas de lado em meio à quantidade excessiva de obras lançadas, não por sua qualidade inferior às demais, mas exclusivamente pelo exagero. Dentre estes subestimados ou menosprezados filmes – e que felizmente hoje estão sendo redescobertos – cito o excelente O Que Vocês Fizeram Com Solange?, do diretor Massimo Dallamano.

Os gialli, em sua grande maioria, possuem uma receita de bolo quase intocável: um assassino com luvas negras faz a festa matando sua vítimas com uma bela faca Tramontina brilhante e com certos requintes de crueldade. Algum cidadão de bem se vê envolvido em meio à trama e decide se tornar Sherlock Holmes por um dia para solucionar o caso, encontrar o assassino, descobrir suas intenções geralmente pífias e sapatear na cara da polícia caricata que passou a fita inteira tentando descobrir e nada conseguiu. O Que Vocês Fizeram Com Solange? até determinado ponto segue à risca esta fórmula, porém com um quê de originalidade e alterando alguns pequenos pontos sutis, a sua particularidade e roteiro se sobressaem e o tornam obrigatório, com certeza.

Você comeu alho?

Você comeu alho?

Na trama, somos levados a França e apresentados a um professor de educação física italiano, casado, que secretamente mantém uma relação promíscua com uma jovem aluna que presencia um brutal assassinato à beira de um rio. Incrédulo no começo, novas vítimas, amigas da testemunha, começam a aparecer e, após um trágico acontecimento com sua namoradinha, decide por si só investigar os porquês das garotas, aparentemente inocentes, mas que guardam um terrível segredo, terem perdido sua vida de forma violenta.

O roteiro, fugindo um pouco de soluções fáceis, é inteligentíssimo e trata com muita propriedade questões que até hoje se vêem como tabu: o medo da discriminação pela relação de duas pessoas com diferentes idades, o casamento de fachada para que a sociedade não o julgue, a religiosidade, a sexualidade, a passagem da adolescência para a vida adulta e suas dificuldades, as sequelas deixadas para sempre como resultado de escolhas errôneas feitas no passado.

Você inevitavelmente se sente incomodado com certas questões embutidas de forma tão natural que, após o término do filme, ficará pensando em como ele as aborda. Toda esta questão sociocultural se passa numa bela Paris fotografa pelo famoso mestre Joe D’amato e uma trilha particular, bela, poética e sensível de ninguém menos que um inspiradíssimo Ennio Morricone. Ah, e também marca o debute nas grandes telas de Camille Keaton, a eterna mulher vingadora-sangue-nos-olhos de A Vingança de Jennifer.

Como falei lá no começo, para nossa alegria hoje, filmes como este, estão sendo redescobertos e relançados por grandes distribuidoras na Europa e EUA, e a Versátil Home Video aqui no Brasil, presente no digistack Giallo Volume 2.

Eu acho que fiz caca

Eu acho que fiz caca


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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