Terror no Pântano – 10 anos de Victor Crowley

Uma análise compreensiva que vai do primeiro ao último sangue derramado pelo maior slasher do século XXI


Era uma vez um garoto chamado Victor Crowley. Nascido com deformidades terríveis, ele vivia isolado no pântano Honey Island, no estado norte-americano de Louisiana, acompanhado apenas de seu pai, Thomas Crowley. Certa noite, um grupo de rapazes, almejando provocar e amedrontar o garoto grotesco, ateou fogo em sua cabana. Ao encontrar o local em chamas, Thomas tentou arrombar a porta usando uma machadinha, porém, o destino havia armado uma trama cruel demais para aquela família. O pai acertou um golpe na cabeça do próprio filho, que estava escorado atrás da porta, matando-o no ato, com um corte imenso na cabeça e no rosto. Thomas morreu de desgosto e tristeza, anos depois. Reza a lenda que, aqueles que vagam pelos pântanos da região durante a noite, podem ouvir os lamentos de Victor Crowley, gritando por seu papai.

Há dez anos chegava aos cinemas norte-americanos Terror no PântanoHatchet, no original -, primeiro longa metragem notório do entusiasta do gênero Adam Green, nas cadeiras de diretor e roteirista, que narra as desventuras de um grupo de turistas incautos na terra do slasher Victor Crowley. Fruto da imaginação de Green, com apenas 8 anos de idade, a história desse assassino só tomou uma forma concreta em 2004, com a conclusão da primeira versão do roteiro.

Na época, Green sentia-se incomodado com o estado do cinema de horror americano em geral, especialmente por fatores como o boom do terror asiático e seus remakes, o CGI tomando o lugar dos efeitos práticos, a ausência de novos ícones do gênero  e até o surgimento do torture porn enquanto subgênero. Segundo o próprio autor, o terror havia perdido muito do fator diversão, tão característico do período oitentista que ele – e nós mesmos – tanto amava. Ao invés de aguardar, passivamente, que alguém se impusesse para trazer esse espírito de volta, decidiu que era hora de tirar Victor Crowley de sua imaginação e resolver a situação por conta própria.

Green assumiu alguns preceitos básicos no desenvolvimento desse projeto, que serviram de linha guia por toda sua duração. A ideia era lançar um novo “herói”, na linha de Jason Voorhees e Michael Myers, que tivesse uma mitologia igualmente simplória, facilmente relacionável, se beneficiando de elementos de humor negro, sem recorrer a imagens geradas por computador, somente maquiagens, próteses e sangue falso do começo ao fim. Para aumentar ainda mais o aspecto referencial e reverencial  aos anos 80, ele trouxe para o projeto figurões como Tony Todd, Robert Englund e Kane Hodder, mais conhecidos como Candyman, Freddy e Jason, respectivamente.

Antes de alcançar o grande público, Terror no Pântano rodou o circuito de festivais de gênero ainda em 2006, com Green fazendo as vezes de marqueteiro, viajando com o filme na base do cartão de crédito, buscando vendê-lo tanto para distribuidoras quanto para os fãs. Todo o trabalho duro foi recompensado com a fantástica recepção nesses festivais, com alguns apontando Crowley como um novo ícone do horror. O longa, então produzido e distribuído fora dos grandes estúdios e corporações, alcançou seu principal objetivo: foi devidamente abraçado pelos fãs mais apaixonados e assíduos.

Nessa primeira fita, pai e filho se aventuram em um pântano proibido para caçar crocodilos, na esperança de lá encontrarem uma maior quantia desse animal e evitar a concorrência com caçadores de outras regiões. Durante a empreitada, eles despertam a fúria de uma besta-fera ainda mais sanguinária que os jacarés e são brutalmente assassinados. O pai é interpretado por ninguém menos que o lendário Robert Englund, nosso amado Freddy, em uma breve participação especial.

Daí saltamos direto para o coração de Nova Orleans durante o Mardi Gras, espécie de carnaval celebrado por lá, conhecido por ser regado a bebedeira e sacanagem, tipo a nossa festa anual. Em meio às loucuras  festeiras, destaca-se um jovem que não parece tão deslumbrado com o excesso de peitos a mostra. Ben (Joel David Moore) só quer saber de lamentar o pé na bunda recebido de sua ex-namorada. Insatisfeito, ele acaba fugindo da festança e arrastando um amigo para um passeio turístico noturno pelos pântanos supostamente assombrados nos arredores da cidade.

Compõem esse tour os dois amigos, um casal gordinho tipicamente americano, um diretor de filmes eróticos acompanhado de duas atrizes pornô e a misteriosa Mary Beth, além do condutor do barco, o asiático Parry Shen, cuja própria existência veio a se tornar uma piada recorrente na série. Para o infortúnio do grupo, um naufrágio faz com que eles fiquem a mercê do pântano e seu habitante mais perigoso: Victor Crowley.

Didi Mocó versão Splatter

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Terror no Pântano é uma obra com um alto grau de autoconsciência, no sentido de nunca perder o foco daquilo a que se pretende. Sem se levar a sério em momento algum e injetando doses certeiras de humor em meio ao banho de sangue perpetrado pela alma maligna que ali habita, se garante no fator divertimento. Os efeitos práticos criados pelo time de artistas é uma verdadeira ode ao gore, verdadeiramente impressionante.

É interessante observarmos que, apesar do título original traduzir para “machadinha”, Crowley faz relativo pouco uso de tal arma, optando por utilizar as próprias mãos e outros artigos para causar estrago e arrancar reações das mais diversas até mesmo no público mais calejado. Verdade seja dita, o tal machado que estampa os pôsteres da série sequer se chama machadinha (ou hatchet)! O nome mais correto para o artefato seria labrys.

No papel do já icônico açougueiro do brejo, Kane Hodder invoca tudo que aprendeu em suas várias encarnações de Jason Voorhees e entrega uma performance ameaçadora, que vende a força e brutalidade sobre-humanas do vilão. Curiosamente, o jovem Crowley é interpretado por uma mulher, Rileah Vanderbilt, que a princípio havia se juntado a equipe apenas como modelo para a criação da máscara prostética da versão infantil da aberração, mas que se tornou participante ativa.

Nessa altura do campeonato Green já havia bolado muito do que viria a ser o cânone desse microcosmo, todavia a maior parte desse conteúdo só veio a ser exposto nas sequências, de forma que, inicialmente, exista um mistério relativo aos pormenores da lenda. A princípio, acredita-se meramente que Victor Crowley seja um espírito morto-vivo que habita o pântano, fadado a vagar por sua antiga morada em busca de seu já falecido pai, destinada a punir todos que adentrarem seus domínios.

A obra recebeu críticas bem divisivas, agradando especialmente aos fãs do cinema de gênero, que receberam no colo um slasher de raiz, seguindo a cartilha oitentista, recheado de homenagens e referências, mas com um frescor próprio e mortes únicas e memoráveis. Podemos apontá-lo como um dos primeiros longas dessa tendência super atual que é o throwback horror. A título de exemplo, a cena final é claramente uma brincadeira com o Sexta-Feira 13 original e um dos personagens ainda faz referência a Leslie Vernon, slasher protagonista do maravilhoso Por Trás da Máscara: O Surgimento de Leslie Vernon.

A segunda parte daquilo que viria a ser uma trilogia chegou aos cinemas três anos depois, em 2010. Green retornou ao projeto como diretor e roteirista, dessa vez sob o selo da produtora Dark Sky Films, com a condição de que tivesse a mesma liberdade criativa que teve no primeiro longa. Apesar de conseguir tal flexibilidade, precisou lidar com algumas questões complicadas. Difícil definir qual foi mais impactante, se a queda brusca no orçamento, que diminuiu quase pela metade, ou a saída da atriz que interpretava a protagonista/final girl Mary Beth.

Pouco se sabe de concreto sobre a saída de Tamara Feldman do projeto. O diretor-roteirista mencionou, em mais de uma ocasião, que a atriz havia feito escolhas erradas na vida e não poderia seguir adiante com a franquia. Entra em cena então uma outra figurinha carimbada: Danielle Harris. Mais conhecida por sua performance como a pequena Jaime Lloyd, sobrinha de Michael Myers, nos filmes Halloween 4: O Retorno de Michael Myers e Halloween 5: A Vingança de Michael Myers, a chegada da atriz foi muito bem-recebida por fãs e entusiastas.

Essa troca de atrizes resultou em um baita problema de continuidade, se considerarmos que os filmes da franquia são uma longa e única história situada em um período curto de tempo. Basicamente, a primeira parte termina com Tamara Feldman caindo dentro d’água e a segunda parte começa com Danielle Harris saindo de lá. Contudo, Green não poupou elogios a nova atriz, que parece ser uma queridinha do diretor.

Tamanho não é documento, disse Leatherface após ver essa imagem

Tamanho não é documento, disse Leatherface após ver essa imagem

A sobrinha de Myers não é a única personalidade a dar as caras por aqui. Entre personagens essenciais para a trama e pequenos cameos, temos a presença do criador do Brinquedo Assassino, Tom Holland e do lendário Lloyd Kaufman, além do retorno de Tony Todd e Kane Hodder. Outros nomes de destaque são R.A. Mihailoff, que interpretou Leatherface em O Massacre da Serra Elétrica 3, Joe Lynch, amigão de longa data de Adam Green e diretor de Pânico na Floresta 2 e Marcus Dunstan, roteirista de boa parte da franquia Jogos Mortais e responsável por O Colecionador de Corpos e sua sequência. O próprio Adam Green faz participação especial em todos os três filmes, como um jovem baladeiro muito louco.

O encurtamento drástico de orçamento teve consequências visíveis em Terror no Pântano 2, que perdeu muito em aspectos técnicos, incluindo iluminação, maquiagem, efeitos práticos e até mesmo atuação. O nível de canastrice caminha em cima do muro que separa o ridículo do divertido, alcançando o ápice de avacalhação com Perry Shen retornando como irmão gêmeo de seu personagem anterior, que havia sido brutalmente morto anteriormente.

A mitologia do universo ganha uma primeira expansão, com a revelação sobre a identidade da mãe de Crowley. Aparentemente, o garoto era fruto da infidelidade de Thomas Crowley, que teve um affair com a enfermeira e cuidadora que ajudava a tratar sua esposa, já no leito de morte. Antes de bater as botas, Shyann Crowley teria jogado uma maldição vodu sobre a amante de seu marido, que também veio a falecer, algum tempo depois, bem no momento que viu a criança pela primeira vez, após o parto. A mera existência do pequeno Crowley, deformado e sofrido, era descrita como uma peste que afligia o pântano.

O personagem de Tony Todd, Reverendo Zumbi, acredita piamente que, para livrar o pântano da maldição daquele açougueiro sobrenatural, precisaria “entregar” ao assassino os responsáveis por sua morte: os jovens que atearam fogo em sua casa e seus descendentes. Ele organiza uma expedição, com ajuda de Mary Beth, para acabar de vez com o espírito carniceiro. O resultado é mais uma rodada cinematográfica de carnificina, com direito a maior moto serra já vista, serrando (você leu sarrando, admita) duas pessoas ao meio simultaneamente.

No hiato entre segundo e terceiro filmes, Crowley foi transformado em desenho na revista Hack/Slash Anual 2011: Hatchet/Slash, uma das mais relevantes publicações de horror nos quadrinhos. A protagonista da série Cassie Hack, é uma jovem que se dedica a caçar de destruir slashers, acompanhada de seu sidekick Vlad. A HQ, que possui um tom muitas vezes semelhantes ao da série Sobrenatural, é conhecida pela protagonista memorável e pelos vários crossovers com personagens icônicos. Oficialmente, Hack enfrentou Chucky e Victor Crowley, e os quadrinhos chegaram a brincar com a ideia de fazer um grande embate envolvendo a matadora de assassinos, Dexter e Jason.

A participação se resumiu a uma única edição e trouxe um conceito bem distante daqui

Tamanho não é documento, disse Leatherface após ver essa imagem

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lo que os filmes apresentam. Nas páginas desse confronto, Crowley é “capturado” e aprisionado em um gigantesco domo, criado a partir de um estádio de futebol destruído pelo furacão Katrina, por uma milionária que, após ser abandonada pelos amigos a mercê de Crowley, foi brutalmente mutilada. Após sobreviver, milagrosamente, ela então busca retaliação, não apenas contra o espírito açougueiro do bayou, mas também contra aqueles que a abandonaram. Claro que Cassie Hack entra no meio da confusão, pra chutar as bolas do malfeitor – literalmente.

Essa não foi a última vez que Crowley deu as caras nos quadrinhos, mas por enquanto, voltemos ao mundo do cinema. Adam Green conseguiu vender seu projeto de um terceiro Terror no Pântano, porém atuou apenas como roteirista e produtor, deixando a direção nas mãos de BJ McDonnell, operador de câmera das duas películas anteriores.

Um pequeno adendo sobre a carreira de Green se faz necessário para entender melhor essa mudança. O cineasta é um baita aficionado pelo horror e dedica a própria vida à isso. Ele mantém o podcast The Movie Crypt, com seu parceiro de longa data Joe Lynch, além de desenvolver uma série de outros projetos no gênero. Na época de produção da terceira parte da franquia, Green estava envolvido na série de tv Holliston, sitcom quase auto biográfico, em que faz as vezes de show runner, ator, roteirista e tudo mais, e começava a traçar os primeiros planos para o maravilhoso Digging Up the Marrow.

Jason Vs Jason

Jason Vs Jason

É perfeitamente compreensível que, após vários anos dedicados à franquia, seu criador opte por passar o bastão para alguém igualmente envolvido e confiável, para ter espaço de se dedicar em algo além. Trabalhando com um orçamento reduzido mais uma vez até ¼ da grana disponível no original, BJ McDonnell se dá muito bem no papel de chefe e entrega um debute no mesmo nível de seu predecessor. Um espectador desavisado dificilmente distinguiria a direção entre segunda e terceira partes.

Aqui, persiste a tradição de trazer rostos conhecidos pelos fãs do horror, com a presença de Derek Mears, o Jason de Sexta-feira 13 (o remake); Sid Haig, o Capitão Spaulding de A Casa dos 1000 Corpos e Rejeitados Pelo Diabo; Caroline Williams, estrela de O Massacre da Serra Elétrica 2; Ted Geoghegan, diretor de Ainda Estamos Aqui, entre outros. Perry Shen também dá as caras, mais uma vez, chutando o balde com vontade, sem que ninguém sequer se preocupe em esboçar uma justificativa, e ainda fazendo piada com o fato. Rileah Vanderbilt, que até então havia interpretado o  papel de um Crowley adolescente, aparece pela primeira vez como uma personagem própria, Dougherty, batizada em homenagem ao diretor de Contos dos Dias das Bruxas.  

Terror no Pântano 3 continua exatamente de onde o segundo filme parou, de forma que, juntando as três partes, sem o acréscimo dos créditos, teríamos uma única película de quase quatro horas de duração. Danielle Harris reprisa o papel de Mary Beth, personagem esta que parece ter recebido bem menos atenção dos roteiristas. Analisando essa final girl de perto, fica a impressão de que ela é uma heroína/protagonista indireta, que nunca está totalmente no centro da narrativa – afinal de contas, os holofotes recaem sobre o próprio Crowley.

A mitologia cresce ainda mais e tudo indica que o assassino finalmente será colocado para descansar. Caroline Williams apresenta uma das ideias mais interessantes de toda a série: Victor Crowley seria uma entidade do tipo “repetidor”, ou alguém que estaria fadado a vagar pela eternidade em seu local de morte, renascendo dia após dia, independentemente de quão ferido estiver. Esse conceito se encaixa muito bem com outros slashers, especialmente Jason e Myers.

Com o aparente encerramento da franquia, que entregou uma conclusão redonda, o futuro do personagem tornou-se incerto. A primeira notícia concreta veio recentemente, com o anúncio da série em quadrinhos Hatchet, lançado pelas mãos da American Mythology. Programada para o segundo semestre de 2017, essa nova sequência em banda desenhada chega para celebrar o décimo aniversário desse universo. Uma edição número 0 já está disponível como um preview do que há por vir: muito sangue e mutilação, resumidamente.

No posfácio dessa edição,  Green  se refere a Crowley como um herói, o que ressalta uma tendência entre os mais adeptos ao terror de criar laços – de medo, ou admiração – com os assassinos e não com os personagens. A maioria dos personagens mais icônicos sobreviveu e perdurou para além dos protagonistas tradicionais. Vilões como Pinhead ou Chucky possuem uma sobrevida infinitamente mais longa que aqueles a quem eles antagonizam e isso parece ser o segredo da longevidade e popularidade dessas franquias.

Além das HQs, Green chegou a mencionar em entrevista o desejo de fazer uma quarta parte em um estilo mais metalinguístico, mostrando Crowley como uma entidade real que descobre a existência de Terror no Pântano e se revolta contra sua retratação cinemática. A ideia é completamente de acordo com a obra do mesmo, e aponta ainda para O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger, de Wes Craven, que também lidou com a possibilidade de seu vilão ser uma figura real.

Apesar disso, estas são apenas informações perdidas e especulação, especialmente levando em consideração a progressão decadente  de orçamento, bilheteria e avaliação dos três filmes. É difícil imaginar que uma nova sequência realmente ganhe vida, particularmente se considerarmos os devaneios de seu criador. O importante é que Terror no Pântano possui um arco completo em três partes que entrega uma experiência brutal, sempre abusando de efeitos especiais 100% práticos, um verdadeiro banquete para os fãs e que tem resistido bem ao teste do tempo.

Abra seu coração!

Abra seu coração!


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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