The Dream Door é a decepção de Channel Zero

Sonho mesmo seria se essa quarta temporada da antologia de creepypasta – cancelada pelo SyFy – tivesse focado só no Jack Pretzel…


Channel Zero, creio eu, talvez tenha sido a melhor série de terror dos últimos três anos. As antologias baseadas em creepypastas de Nick Antosca, desde a imbatível Candle Cove, vinham trazendo um nível de bizarrice, surrealismo, grotesco, tétrico e onírico para a televisão – numa pasmem, produção original do SyFy – de forma coesa, excitante, original e fora dos padrões a cada nova temporada. E todas elas, mesmo a arrastada e sentimentalóide The No-End House, fogem da curva do produto audiovisual televisivo padrão, devido a sua qualidade.

Inevitavelmente uma derrapada iria acontecer, e foi o que ocorreu com a quarta e última temporada – uma vez que a série teve seu cancelamento anunciado recentemente – The Dream House, que foi exibida em outubro do ano passado. Aliás, diria que uma capotada feia e não só uma derrapada, devido ao gigantesco potencial perturbador que o mote principal do roteiro trazia, deixado de lado para uma rocambolesca trama sci-fi absurda, sem pé nem cabeça.

Resumindo de forma até leviana, é como se um produto genuíno, instigante e absurdamente assustador de horror, trazendo, leia minhas palavras, o talvez personagem mais creepy de 2018, tivesse dado lugar durante os episódios, a uma trama esquisitíssima dos X-Men dos quadrinhos dos anos 90 misturada com uma forçação de barra em emular Os Filhos do Medo de David Cronenberg.

Explico: a creepypasta da vez é “Hidden Door” de Charlotte Bywater, e os seis episódios dirigidos por E.L. Katz, o mesmo diretor do mumblegore Cheap Thrills – e que vale mais uma vez a sensação de unidade por toda a temporada dirigida pelo mesmo cineasta – traz os recém-casados Jillian e Tom, que se mudaram para uma casa herdada da família da moça, encontrando uma porta secreta e bizarra no porão, que ao ser aberta, liberta o palhaço contorcionista Jack Pretzel, aparentemente um “amigo imaginário” inventado por Jillian durante a infância após uma visita ao circo, que a protegia da solidão e dos problemas conjugais vividos pelos pais.

Impossível não sentir um frio na espinha ao ver a tétrica figura do Jack Pretzel, interpretado pelo contorcionista Troy James. Se você tem clourofobia, já alerto a passar longe desse personagem. Conforme a trama vai se desenrolando, e Jillian vai ficando paranóica e com raiva de seu esposo, encafifada com uma possível traição, Jack Pretzel aparece, assume suas dores e vai ao encalço de quem a está incomodando.

Não fala pra ninguém, mas acho que vou precisar de um quiroprático

Sensacional, não? Só que isso dura só até o meio da série, e todo esse clima assustador é jogado para escanteio para o desenrolar de uma história maluca onde o palhaço contorcionista é simplesmente deixado de lado para colocar na roda o vizinho do casal que explica que a moça é praticamente uma X-Man e tem o poder de criar coisas com a força da mente, assim como ele próprio. Jura?

Daí é ladeira abaixo. O sujeito passa a tentar ensiná-la a usar os poderes, tipo Charles Xavier mesmo, mas numa pegada mais Os Mutantes da Record – afinal, uma vez SyFy, sempre SyFy – e no final, toda a esquisitice desemboca numa confronto final em um bairro abandonado com um monte de crianças coloridas grotescas materializadas pelo fulano, que parecem saídas do filme do Cronenberg supracitado – e o retorno de Jack Pretzel como, pasmem, o MOCINHO que vai proteger a donzela, aflorando o laço de amizade entre ambos.

Sério, fico me perguntando como um roteiro com um potencial tão absurdo e assustador nos primeiros episódios, degringola para isso. E chega a ser triste, porque Katz nos brinda nos momentos iniciais da temporada com sequências de pura atmosfera, uma performance tenebrosa do palhaço sinistro, assassinatos brutais e perseguições frenéticas e cheias de suspense. Pena…

O quanto elogiei as outras três temporadas de Channel Zero como das coisas mais incríveis vistas nas telinhas nos últimos anos, The Dream Door foi uma decepção só e terminei de assistir a temporada por obrigação moral de trazer esse texto para você, ó fã do horror, já que tinha resenhado as demais temporadas.

Quando The Dream Door, em seus intermináveis seis episódios chegou ao fim, morri de vontade de assistir novamente Candle Cove ou The Butcher’s Block, só pra tirar o gosto ruim do cérebro. E uma pena que a série tenha tido um fim tão decepcionante.

Tá, esperando aqui uma outra série tão legal quanto Channel Zero


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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