The Terror: o horror sim é psicológico, não o frio!

Série da AMC é inspirada no desaparecimento real de dois navios britânicos no Ártico no Século XIX, com direito a criatura saída direto da mitologia esquimó


Em 1845, o Capitão Sir John Franklin partiu com dois navios do almirantado britânico, o HMS Erebus e o HMS The Terror, com direção ao Ártico na tentativa de encontrar a Passagem do Noroeste, desconhecida até então, que liga o Estreito de Davis ao Estreito de Bering, conectando os oceanos Atlântico e Pacífico. Ambos os navios ficaram presos em um rigoroso inverno no Estreito de Vitória, perto da Ilha do Rei Guilherme, no Canadá. A tripulação desapareceu e o resultado foi a trágica morte dos 128 homens que estavam a bordos.

O Erebus e o The Terror só foram encontrados, respectivamente, em 2014 e 2016, sete e quase 10 anos depois da publicação de The Terror, livro do autor americano Dan Simmons, que narra os acontecimentos ficcionais que levaram o infortúnio da tripulação dos dois navios,e  que este ano, foi adaptado para a televisão como série do canal AMC, casa de The Walking Dead, e produzida pelo Ridley Scott.

Aliás, uma PUTA série, é preciso dizer. Densa, pesada, sufocante, com um ritmo arrastado, atuações de primeira, desbunde de fotografia e um design de produção e figurino impecáveis, reproduzindo a expedição da marinha britânica vitoriana misturando em dose certa, terror e drama. As iniciais e equivocadas comparações como O Enigma de Outro Mundo, a epítome do horror ártico, param apenas na localização gélida no extremo norte do globo e nas situações de clausura, insanidade e paranoia que a imensidão branca pode causar nos seres humanos.

Em The Terror, ao invés de uma ameaça transmorfa alienígena, que faz aflorar o pior das pessoas, aqui, uma mística criatura da mitologia inuíte é quem se coloca como o algoz que persegue e caça sem a menor dó os marinheiros britânicos. Mas, não deixe-se enganar, que o monstro não é a principal ameaça aos comandados dos Capitão John Franklin, vivido por Ciarán Hinds (que você provavelmente deve reconhecer como o Mance Rider, de GoT), do Capitão Francis Cozes (Jared Harris, o Rei George VI de The Crow) e do primeiro imediato, James Fitzjames (Tobias Menzes, o Edmure Tully, também de GoT).

Tal qual a conclusão das causas mortis da tripulação dos navios na tragédia real, o desenrolar de infortúnios daqueles pobres diabos os colocam às voltas com pneumonia, tuberculose, escorbuto, e envenenamento por chumbo das latas de comida mal soldadas de uma empresa vagabunda de alimentos, e o próprio sistema de destilação da água dos navios. Isso sem contar a exposição extrema a um ambiente inóspito sem roupa e alimentação adequadas. Não estranha dizer que eles foram acometidos à acessos de loucura, privação, desespero e canibalismo. Tanto na realidade, quanto cá na ficção.

Navio encalhou no Brasil essa semana…

A pitada sobrenatural que Simmons incorporou – e devidamente adaptada – nos traz a maravilhosa história do Tunbaaq, um demônio esquimó com aparência de um gigantes urso polar, criado há milênios pela deusa Sedna para matar seus companheiros de espírito, com quem ela ficou puta da vida e, depois de uma guerra que durou 10 mil anos, os xamãs esquimós descobriram como domar a criatura, cortando suas línguas e oferecendo à besta. A merda toda começa quando membros da tripulação acidentalmente matam o esquimó feiticeiro que controlava o monstro, e eles passam a ser perseguidos e estraçalhados um a um, implacavelmente.

Infelizmente, talvez o Tunbaaq seja o grande ponto fraco de The Terror. Uma criatura feita completamente em CGI, sem o mesmo esmero (ou talvez, recurso) que todo o resto da produção, que acaba passando uma aparência muito falsa, de cutscene de videogame (e não tô falando de um God of War, não), e sua superexposição em certos momentos, principalmente no final da série, acaba decepcionando. Mesmo que, sua presença em tela, implícita ou explícita, acabe causando os momentos de maior gore e brutalidade do televisivo, fora os resultados de conflitos humanos, da loucura generalizada ou mesmo de procedimentos cirúrgicos da época.

Outro fator a se levar em consideração é o ritmo completamente arrastado, que torna a experiência de assistir The Terror beeeeeeem pesada, principalmente se visto em um binge watching. Não que seja um demérito, mas faz com que, infelizmente não consiga lá entregar todo o potencial que poderia, pois há muitas barrigas em seu meio e uma lentidão demasiada e incômoda em seu series finale, criando um imenso teste de paciência assistir seu décimo episódio até os créditos subirem.

Originalmente, The Terror seria uma longa metragem, dirigido por David Fincher. Talvez, a dinâmica funcionasse melhor em um filme de duas horas do que em dez episódios. Mas com certeza, muitos detalhes e o desenvolvimento de personagens, construção de atmosfera e o crescer à conta gotas do desespero e sensação de tragédia iminente dos homens largados a sua própria sorte em uma situação hostil de sobrevivência num dos ambientes mais cruéis do planeta, não seriam tão bem apresentados.

Assistir The Terror, facilmente será uma das mais incríveis experiências audiovisuais para o fã do horror neste ano de 2018, já que é uma das melhores produções do gênero dos últimos tempos, mas requer parcimônia, saber muito bem aonde está se enfiando (não como os marinheiros expedicionários), entender qual o espírito e ritmo quase moroso do seriado e não deixar se decepcionar por um péssimo uso de computação gráfica. E mais importante, assistir tomando um chá quentinho enrolado na maior quantidade de cobertores e edredons possíveis, ainda mais nesse inverno chegando.

Sabe quando queima a resistência do chuveiro no inverno?


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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