Tobe Hooper descansa ao barulho de uma serra elétrica

Pai de Leatherface, diretor texano faleceu neste domingo aos 74 anos e nos mostrou muito da loucura e do macabro do cinema de terror


“Os eventos daquele dia levaram a descoberta de um dos mais bizarros crimes dos anais da história americana”. Parafraseando John Larroquette no monólogo de introdução de O Massacre da Serra Elétrica de 1974, se substituirmos a palavra CRIMES para FILMES, resumimos o significado da contribuição de Tobe Hooper, que faleceu neste domingo aos 74 anos, para o cinema.

Independente de sua irregular filmografia e conturbadíssima carreira, o diretor, roteirista e produtor partiu para o firmamento deixando nada mais, nada menos, do que um dos mais importantes, viscerais, seminais e indiscutíveis filmes de terror de todos os tempos, assim como a criação de um movie maniac ímpar: Leatherface.

Reza a lenda que Hooper estava no departamento de ferramentas de uma grande filial da loja Montgomery Ward, no Texas, próximo ao Natal, já emputecido com a multidão de consumidores das festas de final de ano, meditando sobre qual seria seu próximo filme, quando bateu o olho nas serras elétricas e veio à sua mente o quanto elas poderiam ser úteis para lidar com o problema daquele local lotado de gente e sair dali rapidamente. Foi assim que surgiu a semente para O Massacre da Serra Elétrica, que se manifestou por inteiro em apenas 30 segundos na cabeça do diretor.

Hooper e o produtor e roteirista Kim Henkel, durante aqueles anos 70 que marcavam o fim do sonho americano pós-Vietnã e o escândalo de Watergate, inspiraram-se em uma série de assassinatos violentos que aconteceram em Houston, cometidos por Elmer Wayen Henley, e claro, em Ed Gein, e deram vida a Leatherface e toda a infame família serra (mais tarde batizada de Sawyer). É chover no molhado destrinchar ainda mais esse filme e sua importância definitiva para o gênero, uma vez que alguns o consideram – e com razão – o filme de terror definitivo.

Fato é que sua benesse para a carreira do texano, também foi sua maldição ao longo dos anos.

Na funça

Hooper despontou como filho de um cinema transgressor, cru, vil, com toques sádicos e tom quase documental e caseiro de filmagem. Em seus dois primeiros filmes, Massacre e Eaten Alive, quis escancarar a perversidade humana, levando a insanidade de seus vilões a níveis estratosféricos, sempre utilizando personagens atormentados dos rincões de um Estados Unidos abandonado e sem esperança (quase sempre de seu estado natal), sem o menor pudor e dilema moral em trucidar as suas vítimas, independente de cor, credo, raça, idade ou deficiência física. Foi assim com Leatherface, e depois com o redneck psicótico dono de um hotel de beira de estrada que cria um crocodilo africano em seu pântano e mata seus hóspedes para servi-los de jantar ao “animalzinho de estimação”.

Hooper conseguiu segurar a onda da expectativa após sua obra-prima e após entregar mais um excelente e perturbado filme, deu a todo mundo a impressão de que realmente estávamos diante de um futuro gênio do horror. Dois anos depois, dirigiu a minissérie Os Vampiros de Salem, baseado no livro de Stephen King, para a poderosa CBS, tendo altos níveis de audiência na televisão americana e tornando-se um sucesso instantâneo, ajudando a pavimentar definitivamente o nome do escritor do Maine e tornar suas adaptações de livros para as mídias visuais uma verdadeira febre.

Em Pague para Entrar, Reze para Sair, seu próximo filme, primeiro trabalho para a máquina hollywoodiana, já tendo de abdicar de total controle da obra por conta do corporativismo de estúdio, o diretor ainda está em sua melhor forma. Essa bela homenagem ao cinema de horror como um todo, ficou em uma espécie de limbo dentro do terror oitentista. É um clássico menor, cultuado pelos fãs, mas que foi um desastre de bilheteria e de crítica, muito devido a tal expectativa em torno de seu nome e sua frequente associação ao título de “mestre”, que no final das contas nunca alcançou de verdade.

Mas tudo parecia estar muito bem, obrigado, até que entraram em sua vida Poltergeist – O Fenômeno e seus três filmes feitos para a picareta Cannon Films dos primos Golan e Globus.

Muito já se discutiu sobre a mística de Poltergeist, a respeito de quem de fato dirigiu o filme, se foi Hooper ou Spielberg. Independente da controversa peleja cinematográfica que já dura 35 anos, Hooper começou o degringolar de sua carreira bem ali, devido também a uma série de questões de ordem pessoal, problemas nos sets de filmagem, discussões e brigas com Spielberg, uso de drogas e álcool e uma guerra de egos, que só contribuiu para sua desmoralização na indústria e uma investigação do Director’s Guild of America sobre o filme, que ajudou a fomentar toda a dubiedade de seu dedo na direção do filme.

Hooper, o espírito brincalhão

Bom, arrumar uma treta com um ninguém menos que Steven Spielberg é talvez a melhor forma de queimar  o filme de sua carreira de acordo, mas, digamos que a vida ainda foi generosa com Hooper, e a possível volta por cinema do diretor veio pelo convite da Cannon, junto à sedução de, dez anos depois, poder realizar a esperada sequência de O Massacre da Serra Elétrica.

Golan e Globus deram a ele um contrato de três filmes, carta branca para o sujeito e um tanto de dinheiro em suas mãos, que mostrou-se uma muitas decisões equivocadas da vida empresarial dos israelenses. E os números não mentem: o execrável O Massacre da Serra Elétrica 2 (que a Cannon queria DESESPERADAMENTE produzir de qualquer jeito, mas ficaram pistola quando viram que lhes foi entregue uma comédia, representação cínica do que o gênero se tornara nos anos de 1980) custou quase cinco milhões de dólares e faturou pouco mais de oito milhões; a refilmagem Z de um sci-fi B dos anos 50, Invasores de Marte, gastou $12 milhões para não arrecadar nem cinco milhões e por fim, Força Sinistra que torrou um caminhão de dinheiro – 25 milhões deles, um dos maiores orçamentos da história da empresa – estourou o budget, o cronograma e teve que ser finalizado às pressas, rendendo parcos 11 milhões de dólares de volta aos cofres da Cannon. Isso sem contar o QUASE filme do Homem-Aranha que nunca saiu do papel durante anos, que ele estava cotado para ser dirigido.

Resultados dessa parceria: crise financeira na Cannon, que pavimentaria seu caminho para a falência e sepultamento em definitivo da carreira de Hooper, que nos anos 90, teve em suas mãos apenas filmes menores e sem expressão como Noites de Terror, um segmento da antologia, Trilogia do Terror de John Carpenter e Mangler – Grito de Terror, aquele bisonho filme da máquina de passar roupa assassina, mais um baseado em Stephen King, e estrelado por Robert Englund.

Nada que não pudesse piorar nas décadas seguintes, com verdadeiras trasheiras do mais baixo calibre do naipe de Crocodilo, a refilmagem de Noites de Terror e Mortuária, além de se aventurar na carreira literária com o livro Midnight MovieSeu último filme lançado foi Djinn, em 2013. O diretor já estava na mais completa decadência e figurava no ostracismo, quando recebemos a trágica notícia.

Apesar da carreira inconstante e a coleção de decepções, tomadas de decisão equivocadas, gênio intempestivo, falta de sorte e um uma quantidade absurda de filmes porcarias e outras produções e séries sem brilho dirigidas para a TV, tem seu lugar de direito no hall da fama por O Massacre da Serra Elétrica e o sem número de filmes, diretores e gerações que essa pedra angular do cinema de horror, influenciou.

Descanse em paz ao barulho da serra Tobe.

O verdadeiro pai da família Sawyer!

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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