TOPE NOVE – Horrores da Guerra

Quando a realidade não é ruim o suficiente…


Penso que todos nós concordamos que os horrores provocados pela guerra são incomparáveis. O cinema e a televisão frequentemente oferecem retratações ultra realistas e pesadíssimas desses conflitos, mas assistí-los não significa poder compará-los com o real. Vez ou outra, escritores e cineastas optaram por ousar e acrescentar elementos e figuras tipicamente pertencentes ao terror nessas obras, na tentativa de representar esses horrores metaforicamente, ou ainda acrescentar um novo grau de sofrimento a tragédia, elevando-as à um nível infernal.

O TOPE NOVE do dia reúne algumas obras – incluindo também games e quadrinhos –  que fazem essa mistura entre nosso amado gênero e as mais diversas escaramuças que marcaram a história de sangue, entrando em subgêneros como mortos vivos, terror psicológico, body horror e um pouquinho de nazismo.

A Espinha do Diabo (The Devil’s Backbone – 2001) e o O Labirinto do Fauno (Pan’s Labyrinth – 2006)

Guillermo Del Toro parece ser um aficionado por guerras, tema recorrente em parte de sua filmografia. Nos dois longas que dividem esse espaço, temos dramas fantásticos e sombrios situados em um cenário pra lá de conturbado, a efervescente Espanha nas décadas de 30 e 40. A Espinha do Diabo se passa em 1939, ano marcado pelo início da Segunda Guerra Mundial e final da Guerra Civil Espanhola, que culminou com a ascensão do franquismo, regime ditatorial que dominou o país por décadas a fio. O Labirinto do Fauno, por sua vez, se passa em 1945, já no fim da Segunda Guerra. O escapismo fantástico retratado em ambos fez com que o próprio Del Toro considerasse o último como sucessor espiritual do primeiro.

“Eu sou a montanha, a floresta e a terra. Eu sou um fauno.”

Alucinações do Passado (Jacob’s Ladder – 1990)

Da Espanha revolucionária diretamente para o Vietnã, temos um dos filmes de gênero mais influentes dos anos 90, que parece estar sendo redescoberto nos últimos anos. O conflito armado entre americanos e vietcongues, nos anos 60 e 70 deixou uma cicatriz profunda nas duas nações, de ordem moral e psicológica para os primeiros, e na forma de destruição para os últimos. A falta de sentido ou propósito, a crueldade da selva e a falta de apoio de seus próprios conterrâneos, cobraram um preço altíssimo nos soldados estadunidenses, que voltaram para casa com inúmeras sequelas, de ordem físicas e mentais. Alucinações do Passado aborda esse tema com contornos macabros e uma série de imagens bizarras.

Como já dizia o ditado, de graça, até injeção na testa…

Sob a Sombra (Under the Shadow – 2016)

O histórico bélico do Oriente Médio parece característica inerente da região. Imagino quantos leitores do site já ouviram falar sobre algum período de paz envolvendo os povos daquela região. Sob a Sombra coloca mãe e filha em um embate contra um Djinn, entidade sobrenatural tradicional da cultura árabe, enquanto tentam sobreviver em Teerã durante a Guerra das Cidades, um dos momentos mais tensos da guerra entre Iraque e Irã que ocorreu nos anos 80, logo após a Revolução Iraniana em 79. Na época dessa revolta, estudantes tiveram participação ativa na derrubada do Xá Reza Pahlevi e ascensão do Aiatolá Khomeini, sendo que a protagonista do filme foi uma dessas estudantes. Pra quem sobreviveu à revolução e guerra, um Djinn até que não era muita coisa.

Lençol branco é coisa do passado

The House (Quadrinhos – 2016)

Já no final da segunda guerra mundial, deu-se um dos conflitos mais memoráveis do período, o cerco a Bastogne, na Bélgica. Durante uma semana gelada de dezembro, soldados americanos lutaram contra tropas nazistas para defender um ponto estratégico. Acuados, em desvantagem numérica de 5-1, praticamente sem comida, munição e medicamentos, lutando contra um frio assassino, o batalhão 101 airborne vivenciou o mais puro terror. Essa HQ lançada em 2017 acrescenta uma reviravolta sobrenatural, ao incluir uma casa mal-assombrada que se assemelha ao purgatório bem no meio da floresta de Bastogne, aterrorizando ainda mais os soldados, levando-os para outro tipo de inferno.

Sangue na nave de Bastogne

O Exército de Frankenstein (Frankenstein’s Army – 2013)

A Segunda Guerra parece ser o momento histórico que mais inspirou filmes de horror. Acredito que, em parte pelos boatos de práticas ocultistas envolvendo oficiais nazistas e também pela simples associação do reich ao mal. Aqui, temos um grupo de soldados russos em missão no território alemão, já nos rumos finais da guerra, onde experimentos bizarros haviam sido conduzidos por um descendente de Victor Frankenstein. O longa conta com um design de criaturas absolutamente fabuloso e efeitos práticos igualmente impressionantes. A opção pelo found footage soa um pouco estranha, considerando a época, mas a ideia de um repórter de guerra das antigas é bem ousada. Apesar disso, a falta de recursos técnicos e monetários cobraram um preço alto do diretor estreante.

Humano e máquina se misturam sob a tutela do Doutor Frankenstein versão nazista

Exit Humanity (2011)

A Guerra de Secessão estadunidense também tem lugar nessa lista graças à esse filme indie de zumbis, lançado em 2011. Utilizando de maquiagens de primeira linha e recorrendo ao formato de quadrinhos e ilustrações como ferramenta narrativa, Exit Humanity nos apresenta uma versão alternativa para o fim dessa guerra. Originalmente, o conflito durou quatro anos e foi instaurando quando os sulistas, recusando-se a abolir a escravatura, tentaram se separar do resto do país para criar os Estados Confederados da América. Estes foram derrotados e a escravidão foi finalmente abolida, mas com repercussões sócio-políticas que ainda reverberam no país de Donald Trump. A diferença nesta versão cinematográfica é que a guerra dá uma pausa por causa dos mortos-vivos. Outro filme passado no mesmo período é o divertido Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros.

Nós vamos te pegar, nós vamos te pegar!

Campo 731 – Bactérias, A Maldade Humana (Men Behind the Sun)

Nenhum filme é verdadeiramente polêmico se não houverem relatos de cadáveres reais, banimento internacional, crueldade animal e ameaças de morte aos envolvidos.  Campo 731 possui todas essas características e ainda mais. A produção realizada entre China e Hong Kong é uma encenação dos horrores reais de um dos casos mais notórios de experimentação com humanos, no qual cientistas em um campo de pesquisa de armas biológicas japonês realizavam vivissecções (semelhante a autópsias, mas com pessoas vivas), desmembramentos e inocularam as vítimas com diversas bactérias. Os primeiros experimentos foram feitos no início dos anos 30, mas se intensificaram durante a segunda guerra Sino-Japonesa, que ocorreu entre 1937 e 1945. O gênio do mal por trás do campo, Shirô Ishii (um Joseph Mengele japa) nunca foi preso e ainda recebeu imunidade diplomática em troca dos resultados de seus experimentos. Pra quem quiser adentrar ainda mais nesse mundo bizarro, o filme Philosophy of a Knife também retrata o mesmo incidente.

Me dá uma mãozinha aqui doutor!

Mortos de Fome (Ravenous – 1999)

Alguns anos antes da guerra de secessão estadunidense, entre 1846-48, aquele país travou uma breve guerra territorial com seus vizinhos de baixo, os mexicanos. O conflito teve início com a recusa do México em conceder uma parte ao norte do país para os americanos, o que resultou em uma invasão e diversos conflitos. A guerra terminou com vitória dos Estados Unidos, que anexou parte do território do rival ao seu próprio, criando a terra conhecida como Texas.

Ainda pouco valorizado, Mortos de Fome é um dos longas mais sangrentos e divertidos dos anos 90. A obra, que retrata soldados americanos forçados a praticar canibalismo durante a guerra México-Americana, é recheada de um humor negro fantástico. Poucos são os filmes que abordam um tema tão tabu de forma tão divertida quanto este.

Essa batata da perna está de lamber os dedos…

Ad Infinitum (Game)

Um dos momentos mais memoráveis – pelas piores razões possíveis – da Primeira Guerra Mundial é a fase conhecida como Guerra de Trincheiras. O confronto que durou alguns anos na frente ocidental da batalha (mais ou menos na região da Bélgica) foi marcado pelas batalhas dentro das trincheiras cavadas pelos próprios soldados como suposta proteção. Este foi o período mais mortífero do confronto, que envolvia todo tipo de arma para combate em longo e curto alcance. Entre as trincheiras rivais, existia a Terra de Ninguém, espaço que era disputa vida após vida e local onde muitas das mortes ocorriam. Na tradição do horror, era de se esperar que essa região rapidamente se tornasse um lugar assombrado. É baseado nessa premissa que o survival horror Ad Infinitum se situa. O jogo coloca um soldado entrincheirado tendo que resolver enigmas e escapar de armadilhas para sobreviver em um verdadeiro labirinto de trincheiras, enquanto é atormentado por entidades sobrenaturais maléficas. Ainda não há previsão de lançamento para essa maravilha dos jogos eletrônicos, mas ele um dia chegará para PCs!

 

Não há nada ruim que não possa piorar. Essa frase foi feita pra esse jogo

 


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

2 Comentários

  1. Matheus de Carvalho disse:

    onde acho The House pra ler??

    • Daniel Rodriguez Daniel Rodriguez disse:

      Fala Matheus! Cara, eu encontrei a HQ online, em inglês, mas não me lembro o site. Digita read comics online no google que vai ser uma das primeiras buscas!

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