TWD: A vida após Negan

Que a misericórdia prevaleça sobre o ódio


Mais uma vez é chegada a hora de falar sobre The Walking Dead. Na noite passada, um pacato domingo de abril, a oitava temporada do seriado sobre os mortos-errantes – ops, sobre as pessoas no universo apocalíptico, como gostam de dizer por aí – chegou ao fim, deixando para trás um longo rastro de personagens mortos e espectadores incrédulos. E agora?

Uma crise chega ao fim

Ao longo dos 16 episódios que compunham a temporada, a guerra total entre Rick Grimes e seus aliados, contra Negan e os salvadores persistiu de maneira incansável, com reviravoltas intermináveis episódio após episódio. Em diversas ocasiões, a turma de Rick obteve, perdeu e recuperou a vantagem no conflito, ao passo que os soldados de Negan mostravam-se infinitos.

Naqueles oito primeiros episódios, antes da chegada do tão falado mid-season finale, não havia lá muito desenvolvimento de personagem e nem muito conteúdo, já que as motivações embasando a treta haviam sido muito bem estabelecidas na temporada passada. Havia apenas um senso de continuidade, um desenrolar de um conflito que começou a ser traçado lá na sexta temporada.

Esse prolongamento se deu de maneira não muito satisfatória, como mostram os números do show. Com episódios exageradamente complexos em termos de estrutura e montagem, uma narrativa retorcida, confusa e arrastada, cheia de espaços vazios, a audiência foi, mais uma vez, debandando em manadas. Este que vos fala chegou a se afastar do seriado por um tempo, tão ruim foi aquele segundo episódio…

Atenção, no parágrafo seguinte, entrarei no campo dos SPOILERS, então tenham cuidado. Mas fiquem tranquilos, os pormenores do episódio final serão ocultados!  

… então Carl Grimes foi mordido. P*** que pariu!

Nos meus textos anteriores sobre a série, mencionei um certo comodismo pessoal, compartilhado pelos leitores da HQ, no sentido de sempre estarmos um passo à frente da trama. Certamente, nenhum de nós contava, nem remotamente, com a morte de Carl fucking Grimes, que segue vivão e vivendo nas páginas de Robert Kirkman e Charlie Adlard.  

Confesso ter demorado para assimilar o fato. O nono episódio, quase uma eulogia ao personagem, foi dos mais emocionantes. Sabe aquela sensação de ver os atores mirins de Stranger Things crescendo? Pois é, imagine isso ao longo de oito anos. Ter Chandler Riggs, com sua atuação pouco expressiva, nesse papel, era algo tão comum para mim, que fiquei bastante abalado e um pouco irritado. Afinal, porquê matá-lo?

RIP CARL

O ferimento que lhe custou a vida se deu em um contexto particular, fora da guerra contra os Salvadores. Carl buscava simplesmente prestar respeito e ganhar a confiança de Siddiq, um sobrevivente que vagava sozinho e faminto pelo mundo (já recorrente nos quadrinhos). Há uma certa banalidade na morte do personagem, que mostrou-se fundamental para o desenrolar da temporada.

Como mencionado anteriormente, motivações e posicionamentos já estavam muito bem estabelecidos. Rick Grimes praticamente tornara-se um monstro, por muito pouco diferente de Negan. Não havia sinal algum de que isso poderia mudar. Negan, por sua vez, estava cada vez mais obstinado em destruir o grupo rival. Curiosamente, Carl exercia um efeito sutil no próprio Negan, cuja humanidade parecia minimamente refletida através do garoto.

Dessa forma, o desejo de Carl, dotado de uma certa imaturidade, de um otimismo inocente e juvenil, foi a única coisa que conseguiu atravessar a casca de ódio e vingança que revestia os líderes de ambos os grupos. Em decorrência disso, ao final do conflito, Negan cedeu a abertura que lhe causou a derrocada final. Já Rick, em outro momento e com olhos marejados, proferiu: “minha misericórdia prevalece sobre meu ódio”.

Imagino que, para quem não está familiarizado com os quadrinhos, a solução da contenda tenha sido uma surpresa. Após anos de escalada violenta de conflito e comportamento, os personagens contiveram o ímpeto assassino do pós-apocalipse, em prol de um futuro melhor. Tudo isso, graças ao falecimento banal de Carl fucking Grimes. Palmas para os roteiristas, que construíram uma transição muito bem pensada e efetiva, garantindo uma resolução até bem orgânica.

Já na segunda metade, os personagens secundários também se transformaram. Alguns transacionaram permanentemente para outros grupos, uns compartilhavam dos ideais de Rick, outros nem tanto. Inclusive, algumas possíveis desavenças futuras já foram apontadas nesse finalzinho.

Cabe aqui uma menção ao destino de dois personagens em particular. Maggie Greene, a viúva, cresceu muito em relevância nesta última temporada, processo semelhante ao dos quadrinhos. Cresceu também a demanda pela atriz Lauren Cohen dentro da indústria, o que levou a moça a pedir um aumento considerável de salário.

O comprometimento com uma série tão longa costuma ser um problema para alguns atores, é perfeitamente compreensível. Infelizmente, em um ponto tão importante da personagem, fica difícil saber o impacto que sua possível ausência teria na trama. Ao que tudo indica, o acordo final com a atriz significaria uma presença reduzida da mesma nas próximas temporadas.

Num outro extremo, o ator Lennie James, o Morgan, parece confiante em sua transição inter-séries. Morgan participará do já aguardado crossover entre The Walking Dead e Fear the Walking Dead, série derivada e de menor sucesso. O personagem se tornou uma das figuras mais peculiares do grupo. Sua loucura adotou contornos saídos diretamente de Um Lobisomem Americano em Londres.

Lutando contra os haters

Outra crise persiste

A guerra dentro das telinhas terminou para Rick, Michonne, Daryl e cia. Porém, nos bastidores, uma outra guerra continua, sem sinais de fraqueza. A queda de audiência tornou-se ainda mais acentuada na segunda metade da temporada, atingindo números assustadoramente baixos, quando comparado com anos anteriores.

Para quem já oscilou entre 10 e 17 milhões de espectadores por episódio, ter uma sequência de capítulos na casa dos seis milhões é um choque grande. Esses números só haviam aparecido lá no início da segunda temporada, quando a série estava construindo seu público. Apesar disso, os números ainda são altos o suficiente para garantir uma nova temporada.

Com a nona parte já confirmada, os produtores anunciaram algumas coisas. A então produtora Angela Kang passa a ser showrunner oficial de The Walking Dead. O também produtor David Alpert não só confirmou uma décima temporada, afirmando ter um plano muito claro sobre os rumos da série, como também diz que já existem ideias para as possíveis temporadas 11 e 12. E o melhor de tudo, baseando-se nos últimos anos dos quadrinhos.

Em um dos meus textos mais recentes sobre a série, mencionei algumas possíveis razões e soluções para essa crise. Um dos motivos seria violência desmedida, como visto no episódio em que Negan é revelado. Aos olhos do público, parece haver uma diferença notável entre massacrar um morto-vivo e um ser humano. Já há algum tempo, os vivos vinham sofrendo mortes absolutamente escabrosas, que causaram problemas até com a censura.

Esse ponto foi claramente explorado na oitava temporada, que deve ter sido uma das menos gore até o momento. Salvo um episódio em que a turma do Rei Ezekiel foi fuzilada por armas de grosso calibre, esses momentos chocantes, até então tão característicos, foram drasticamente reduzidos. Esse fato, por si só, não surtiu nenhum efeito imediato, já que os números continuaram baixíssimos. Outra possível razão seria um esgotamento do público, tanto com o vilão Negan quanto com o prolongamento dos acontecimentos. Os episódios pareciam dilatados, cheios de barriga e enrolação. Como se tentassem espalhar um pouquinho de manteiga em um pedaço grande demais de pão.

Qualquer um conseguia perceber que não havia muito plot envolvido na temporada e as longas sequências mortas, com personagens combalidos com o olhar perdido e em diversos graus de sofrência não fizeram muito para ajudar. O tão aguardado fim da saga Negan solucionou parte desse revés. Se as próximas temporadas serão reduzidas ou com mais conteúdo, só saberemos em outubro.

Nessa altura do campeonato, os quadrinhos serão um grande suporte. De certa forma, o confronto contra os Salvadores foi uma repetição em maior escala de conflitos anteriores contra outros grupos e líderes cruéis, como o já esquecido Governador e o povo canibal. As sagas que vieram após o arco Negan são assaz diferentes em termos de acontecimentos e temática. Dessa maneira, é plenamente possível que uma nova reviravolta de qualidade surja nos próximos capítulos, reconquistando os fãs. Da mesma forma, o contrário também pode acontecer.

Nesse momento, The Walking Dead é um sobrevivente que foi mordido na mão. Uma amputação rápida, pode salvar sua vida. Porém, quanto mais demorarem, mais o vírus se espalhará. Todos nós sabemos muito bem o que vem depois… Mas, apesar do risco, TWD tem tudo que precisa para ser como o Rick Grimes dos quadrinhos, que não tem uma mão, mas continua cabuloso.

Após nove anos de seriado, saber que o futuro tem tanto potencial e que poderei acompanhar esses personagens/atores por mais tempo é um verdadeiro presente. Por aqui, sigo forte na expectativa e amor pela franquia. E vocês?

Eis o futuro

 


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

1 Comentário

  1. Roberto Vasconcelos Eluan disse:

    SPOILER!!!

    Achei a morte do Carl imperdoável. Tudo porque os produtores demitiram o Riggs sem maiores critérios. O personagem é uma das principais motivações do Rick. Enfim. Ainda nem sei por que assisto. Já dropei outras séries por muito menos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: