TWD: Um novo começo

Guerra Civil e Sussurros


Forças estranhas operam ao redor de The Walking Dead. O primeiro episódio da nona temporada chega pouco após a triste notícia do falecimento de Scott Wilson, que interpretou o querido velhote Hershel Greene ao longo de quatro temporadas. O personagem permanece vivo na série através de seu neto, o bebezinho Hershel. Com certeza sua memória mantém-se viva entre fãs, colegas e familiares.

Porém não é daí que advém a estranheza que paira sobre o seriado. Já nas últimas temporadas, houve uma queda drástica de audiência, afastada por diversos motivos, que variam entre excesso de violência até o mais puro desgaste. Sucedeu-se uma troca de poder nos bastidores, com Angela Kang se tornando showrunner.

Lauren Cohen, a Maggie, demonstrou interesse em sair do programa e dedicar-se à outros projetos, resultando em rumores de que sua participação na nova temporada seria mínima e quiçá final. Uma decisão estranha de roteiro precisou matar Carl Grimes para sacramentar o fim do conflito Rick e Negan, abdicando assim de uma das melhores dinâmicas de personagem criadas por Kirkman. E claro, acima de tudo isso, Andrew Lincoln oficializou sua retirada do televisivo ao final da season, colocando um ponto final na trajetória de Rick Grimes.

Em meio a tantos problemas óbvios, os produtores insistem em dizer que não há problema algum. Continuam clamando que a série há de seguir adiante por outra década com força e energia renovadas, sabe-se lá como.

The Walking Dead não é a primeira e não será a última série de televisão a passar por isso. Com exceção talvez das séries procedurais, tipo Law and Order, programas seriados que se estendem por tempo demais sempre sucumbem aos mesmos problemas: um elenco cansado, necessitado de uma mudança de ares ou querendo se dedicar a outros projetos; um público também cansado e desinteressado; um paradigma de televisão diferente; uma mesa de roteiristas que precisa adaptar o plot as demandas externas o tempo inteiro…

Será que o universo seriado de Robert Kirkman tem forças para sobreviver a isso?

Pula pro banco de trás, Rick, que a série agora é minha!

Um Novo Começo…

O episódio final da oitava temporada encerrou o arco Negan de forma relativamente satisfatória, apesar da morte de Carl ainda me parecer um baita erro. Parte considerável das reclamações em torno do programa advinham dessa fase. Reside aí uma possibilidade real de reconquistar fãs desiludidos.

O episódio inicial, apropriadamente intitulado “Um Novo Começo”, está no meio de uma fase de transição entre duas das sagas mais poderosas existentes nesse universo. Vemos ali um Rick Grimes de barba branca em uma sociedade que prospera na medida do possível. Há uma nova organização inter-comunidades, encabeçada por Rick, que busca reconstruir a civilização, aumentar a produtividade, conquistar novos recursos. Há um movimento por debaixo dos panos, de pessoas querendo as coisas como eram antes, meio que um #voltaNegan ou #foraMaggie.

Maggie aparece como a personagem mais suscetível aos problemas comunitários, dado seu temperamento explosivo adquirido nas últimas temporadas, a discordância para com o destino de Negan e claro, o próprio desinteresse da atriz em continuar no papel.

Pensando no episódio, me vem à cabeça a palavra inglesa “uneventful”, que significa sem complicações, ou sem acontecimentos notáveis. Nesse novo começo, constrói-se a semente de um desentendimento entre Maggie e Rick que irá reger ao menos essa primeira metade de temporada. Verdade seja dita, como se importar com a treta de dois personagens cujos atores já declararam que sairão de cena logo mais?

Como dito anteriormente, esse é um período de transição, um filler no qual um novo mundo será estabelecido antes de deparar-se com algo ainda mais tenebroso que antes. Ao mesmo tempo que um recomeço pode reavivar o interesse de alguns, existe um grande revés que é a obrigação de lidar com essa nova demanda decorrente da saída de certos atores, a necessidade de construir algo que possa pavimentar o caminho para um novo protagonista, alguém que ocupe o papel MUITO necessário de Rick.

O episódio um falha, inclusive, em lidar com aquele que considero o maior problema de TWD, já mencionado em meus outros textos sobre o programa: pouco conteúdo para muito tempo de tela. Possivelmente isso será um divisor de águas notável ao longo dessa nova etapa, que é bastante uneventful desde os quadrinhos.

Ares de series finale.

…ou o começo do fim?

Os nomes mais cotados para assumirem a liderança são Michonne, Daryl e Carol, os três últimos que restaram do grupo original. Considerando que Danai Gurira tem se tornado um nome procurado por estúdios e Carol possui um perfil bastante diferente do almejado, tudo aponta para Daryl. As movimentações de bastidores também apontam para a elevação do personagem mais popular ao topo.

Dentre o rol de personagens disponíveis, acredito que o protagonismo deva residir em Michonne ou Daryl, mas  nenhum dos dois será um suplente apropriado para o PAPEL que Rick ocupava, já que ambos são solitários e de poucas palavras.

Penso que a grande salvação de TWD esteja nas mãos dos Sussurradores. A saga que será iniciada após esse conflito Grimes-Greene, é a mais diferente, fantasiosa e épica dos quadrinhos, apresentando uma gama de possibilidades bem distintas, quando comparadas com os arcos Governador, Terminus e Negan. Essa é a saga com potência suficiente para tornar o show relevante novamente.

Porém ainda resta saber em qual momento ela será instaurada. A opção mais sensata e segura seria apresentar os novos vilões ainda no primeiro bloco (antes do episódio 9), criando um mid-season finale que seja empolgante o suficiente para gerar conversação sobre. Caso contrário, chuto que a debandada de público será ainda maior e mais difícil de ser revertida. Considerando que a saída de Andrew Lincoln já será punitiva o suficiente para afastar muitos, um outro golpe pode ser definitivo para que a série ou morra de vez, ou se torne um zumbi.

Como fã – excessivamente crítico, talvez, mas ainda sim um fã – me preocupo com o estado atual e as decisões tomadas nos bastidores. Preocupa-me ver um programa com tanto potencial tornar-se refém de si mesmo, com a trama se desdobrando para atender demandas claramente externas a própria narrativa, como a saída de protagonistas.

É especialmente triste se pensarmos o quão relevante o programa se tornou, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. The Walking Dead retornou para as telinhas, no dia que os brasileiros quase elegeram seu próprio Negan em primeiro turno, com sua proposta pró-violência e governo pelo medo. Digo mais, os Sussurradores, que ainda aparecerão para vocês que não leem os quadrinhos, refletem ainda mais essa intensa manipulação de massa zumbificada tão presente por aqui. E por favor, quem pensa que política não cabe aqui, recomendo estudar a origem dos zumbis de George A. Romero antes de mais nada.

O zumbi é o mais político dos monstros do terror. E tenho dito.

Rick, matador de zumbis!


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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