Um novo tipo de inimigo, um novo tipo de guerra – 20 Anos de Tropas Estelares

Inseto bom é inseto morto


Sempre que escrevo uma crítica ou artigo, imagino estar dialogando com outros cinéfilos, geralmente com interesses semelhantes aos meus. Com essa identificação em mente, consigo afirmar seguramente que vocês, leitores, devem possuir algum filme muito especial, que os tenha marcado tão profundamente na juventude que até hoje figura entre suas obras favoritas e grandes influências criativas. No meu caso, esse filme é Tropas Estelares.

Do VHS alugado à Tela de Sucessos do SBT, o filme de Paul Verhoeven marcou minha infância de tal forma que, passados quase duas décadas de primeiro contato, ainda nutro um amor incondicional por essa obra-prima, fato este que tentarei expor no presente texto, que fará as vezes de viagem no tempo e carta de amor, celebrando seus 20 aninhos.

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Dissecação de Barata 101

Tudo começa com um roteiro chamado Caçada aos Insetos no Posto Avançado 9, cujo conteúdo e conceito muito se aproximavam do livro de ficção científica com fortes tendências direitistas Starship Troopers. Tal semelhança fez com que os envolvidos licenciassem o livro para produção, criando algo novo a partir daí. Com roteiro de Ed Neumeier e direção de Verhoeven, nasce uma obra definitiva que vai da sátira ao gore em apenas um clique.  

Na época de seu lançamento, Verhoeven seguia embalado na ficção científica, com RoboCop – O Policial do Futuro e O Vingador do Futuro, obras que misturam na mesma panela não apenas o cinema sci-fi, mas também o de ação e o gore e efeitos práticos do horror. Não é atoa que uma das principais características da fita é o nível de violência exacerbado, que o torna pouco palatável para os de estômago fraco.

A trama é centrada no personagem Johnny Rico (Casper Van Dien), um riquinho rebelde empenhado em se tornar um cidadão – direito concedido apenas aos que se dispusessem ao serviço militar. O x da questão reside no inimigo a ser combatido nessa carreira militar, uma raça aracnídea de proporções imensas, originárias do planeta Klendathu, lar de outros insetos colossais e dotados de uma inteligência que a humanidade não está preparada para aceitar.

No início de sua carreira militar, Rico vê um futuro promissor ir por água abaixo, quando uma de suas ações resulta na morte de um colega. Prestes a abandonar tudo e voltar para casa, recebe uma notícia que muda sua vida: os insetos de Klendathu enviaram um asteroide em direção a terra e o alvo foi Buenos Aires, lar de Rico e sua família.

De motivação renovada pela desgraça que lhe acometeu, ele participa do contra-ataque, que leva centenas de milhares de soldados humanos até Klendathu, para combater os insetos direto na fonte. O fracasso absoluto dessa missão resulta no reconhecimento da inteligência militar dos aracnídeos e uma mudança de tática, focada na estratégia, que ditará um novo rumo para o conflito.

Além de Rico, outros personagens importantes são a piloto e grande paixão do protagonista, Carmen Ibanez (Denise Richards) e o melhor amigo do casal, Carl (um Neil Patrick Harris mancebo) e o affair de Rico, Flores (Dina Meyer). Nos papéis secundários, temos uma enorme variedade atores que se viriam a ganhar um pouco mais de destaque nos anos seguintes, como o próprio Neil P. Harris e Seth Gilliam, mais conhecido como o Padre Gabriel em The Walking Dead.

Com um universo extremamente bem construído, personagens carismáticos e efeitos especiais dignos de oscar, Tropas Estelares tem recebido reconhecimento apenas nos últimos anos, em uma espécie de fenômeno cult. Na época de seu lançamento, sofreu críticas pesadas que citavam, entre outras coisas, a violência desmedida e a aparente tendência fascista.

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Legen… wait for it… DARY! Legendary.

 

Uma das características mais marcantes da obra de Verhoeven são os constantes intervalos entre atos e sequências longas, que apresentam, com um aspecto de propaganda, a realidade da Federação. Cidadãos empenhados no extermínio de um inimigo comum e uma organização social fortemente militarizada são exemplos de uma sociedade marcada pela guerra, que tornou-se claramente fascista. Das propagandas ao próprio figurino e insígnias dos oficiais de posto mais elevado, há uma clara influência estética do nazismo.

Porém, ao contrário do que pensaram os críticos incautos da época, tal abordagem era plenamente intencional e satírica. Verhoeven diz ter buscado inspiração no cinema propagandista alemão para reproduzir fielmente o aspecto militar do Terceiro Reich, mas aplicado em outro contexto. Segundo o próprio diretor, sua visão retrata um possível caminho ao qual os próprios Estados Unidos estariam sujeitos a seguir. E a utilidade de todo esse poderio militar superior, com armas de destruição em massa e super naves? Enfrentar insetos.

Ao rever Tropas Estelares pela enésima vez, mas já com uma idade mais madura, torna-se fácil observar esses fenômenos que passaram despercebidos na época de seu lançamento. Para uma criança na casa dos 8 ou 9 anos, tal percepção beira o incompreensível. Apesar de toda a possibilidade de ser entendido sob essa perspectiva, o filme também opera em um nível mais basal, conquistando por diversos outros motivos que não a satírica político-social.

Não apenas o mundo criado por Verhoeven é esteticamente e conceitualmente impressionante e peculiar, como também é cenário de uma história de herói clássica muito bem contada, possuindo arcos bem delimitados e um ritmo preciso. Essas características garantem que o mesmo seja incrivelmente divertido e que continue a funcionar ano após ano. O design dos insetos e a violência perpetrada por eles dispensa comentários.

No papel de um fã incondicional que tem assistido ao filme repetidamente por quase vinte anos, pode parecer complicado desassociar a memória afetiva do concreto. Mas é no papel de crítico que consigo observar com facilidade que essa memória afetiva não existe por acaso.

Lembro-me que encontrei nessa narrativa inspiração para criar um mundo próprio, ainda na infância. Nas poucas páginas que meu eu de 9 anos foi capaz de conceber naquela época, um garoto se aventurava por uma versão futurista de Buenos Aires. Nem mesmo uma criança Argentina teria escrito algo passado nessa capital, senão por uma influência como Tropas Estelares.

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Vocês querem viver para sempre?

De seu lançamento em 1997 até a atualidade, a franquia desdobrou-se em outros dois filmes em live-action, dois filmes em CGI  e um série animada no mesmo formato, além de ser adaptado para os games e quadrinhos.

Lançada em 1999, a série Tropas Estelares – Crônicas dos Ferozes expandiu um pouco o universo particular do batalhão do qual Rico inicialmente fez parte e posteriormente assumiu, os Roughnecks. Essa versão animada surgiu na época em que animações 3D como Beast Warriors eram um sucesso. Com apenas uma temporada de 36 episódios, sem nada da violência característica do original e sem o peso da sátira de Verhoeven, que atuou como produtor executivo, o seriado caiu no esquecimento, mas garantiu boas doses de divertimento pra quem pegou o programa na televisão aberta.

Em 2004, a primeira sequência em live-action chegou sem brilho algum, sem trazer nenhuma das estrelas do antecessor. Tropas Estelares 2, que em inglês recebeu o subtítulo Herói da Federação sequer conseguiu trazer Casper Van Dien para reprisar o papel de Rico, mesmo o ator tendo se tornando um figurão (mega carismático, com seu rosto quadrado) do cinema B.

O pior é ver no pôster a tentativa de disfarçar o protagonista para que ele se pareça minimamente com Van Dien. Igualmente estranho é ver um filme de 2004 com efeitos visuais absurdamente inferiores à outro longa de 1997.

Já em 2008, para a terceira parte, Casper Van Dien finalmente retornou ao papel de Rico, que até hoje é um dos meus personagens preferidos. Talvez minha empolgação ao falar sobre o cara já tenha deixado isso claro. Tropas Estelares 3 supera o antecessor, o que não é lá muito mérito. A direção e roteiro de Ed Neumeier garante ao menos um pouquinho do charme do original. Mas olha, muito pouquinho mesmo. Estes dois últimos são sci-fi de classe D!

Foi só abandonando o live-action que a série voltou a ter alguma qualidade real, por meio da animação em CGI Invasão, de 2011. Voltam a franquia os personagens Carl Jenkins (sem Neil P Harris) e Carmen Ibanez (sem Denise Richards), além do próprio Rico. Infelizmente, Van Dien não serviu de modelo e nem deu a voz ao personagem, de forma que perdeu metade de sua personalidade.

Durante todo esse tempo, pouquíssimas novas espécies de Insetos foram introduzidas ao universo, com exceção da rainha e alguns outros bugs pouco memoráveis. Nada que se compare aos besouros lançadores de plasma ou aos aracnídeos tradicionais.

Seguindo um hiato de sete anos, mas bem em tempo de comemorar o vigésimo aniversário, o diretor Shinji Aramaki, também responsável por Invasão, juntou-se ao roteirista Ed Neumeier para finalmente fazer algo decente.

Em Tropas Estelares: Invasores de Marte, não apenas Van Dien retorna ao seu papel mais icônico pela terceira vez, como também temos a volta de Dina Meyer como Flores. A qualidade da animação varia muito, indo do realismo absoluto ao cutscene de playstation 2 mais vagabundo em um piscar de olhos. Mesmo assim temos aqui um filme recomendável para os fãs. Curto, dinâmico e divertido, é quase uma cartinha de amor à Rico e os aracnídeos.

No fim das contas, por mais que seja possível encontrar algum divertimento masoquista nessas sequências, nenhuma delas faz sombra na grandiosidade do original em nenhum aspecto. Prova máxima será a completa de surpresa de muitos de vocês ao saber da existência de outras quatro partes.

A explicação mais razoável para esse fato está na conexão profunda existente entre autor e obra. Sem Verhoeven, o universo de Tropas Estelares parece perder sua individualidade, tornando-se apenas mais um sci-fi, o que não corresponde à realidade da obra, que pode ser descrita como genial e atemporal.

Cool guys don’t look at explosions


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

1 Comentário

  1. Henrique disse:

    Sempre curti esse filme! Um dos melhores do Verhoeven, mas o mais subestimado. Lembro que na época do lançamento teve muita crítica massacrando o filme, acusando de ser uma propaganda fascista. Bobagem, sempre torci pelos insetos alienígenas. Aliás, depois do Alien do Ridley Scott, esse são os monstros alienígenas mais bacanas do cinema.

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