Você: A obsessão em tempos de internet

Série distribuída pela Netflix apresenta um stalker apaixonado – ou obsessivo?


Nessa era de modernidades na qual nos encontramos, um dos maiores prós é a facilidade de informação que podemos conseguir sobre determinado assunto, seja ele da natureza que for. Você pode, a um clique ou scroll na tela do smartphone, descobrir muito sobre algo ou alguém, sem esforço algum. Essa situação, ao mesmo tempo que favorável se empregada de maneira correta, pode se tornar extremamente assustadora porque, somada a necessidade de existirmos online e de registrarmos cada passo cotidiano no Facebook, pode gerar um leque de possibilidades negativas.

Ou vai falar que você nunca teve (ou conheceu alguém) que tinha um stalker, daqueles que curtiam cada post, cada foto compartilhada, cada ato seu, por menor que seja, em alguma rede social? Apesar de ser algo mínimo, comparando com o verdadeiro terror do ato, ainda assim é uma situação que gera um grande desconforto.

Stalker é uma palavra inglesa que significa, literalmente, “perseguidor”, e é geralmente empregada em situações onde uma pessoa se torna interessada de maneira insistente e, muitas vezes, obsessiva, acerca da vida de outra pessoa. Esse tipo de perseguição e vigilância pode acontecer de várias maneiras e, em maioria das vezes, acarreta em ataques diretos. Geralmente, pessoas famosas são os alvos mais fáceis desse tipo de perseguidores. Aliás, há relatos documentados desse tipo de coisa ao longo dos séculos porém, como dito anteriormente, a necessidade de expormos nossas vidas na Internet facilitam que esse tipo de comportamento seja alimentado.

Resumindo: com o advento da Rede Mundial de Computadores, qualquer pessoa pode sofrer com essa situação, até mesmo porque a Internet de certa forma garante um anonimato, uma falsa sensação de que qualquer ataque feito em redes sociais pode passar impune.

“O crush tá vindo, aja naturalmente…”

Não estou falando, obviamente, daquela stalkeada que você dá na sua ex namorada que tá feliz e bem vivendo a vida dela longe de você. Nem de quando você decide fuçar a vida das pessoas que estudaram com você na época do colégio pra saber se eles estão bem ou fracassaram na vida. Ou querer saber mais dos gostos do crush após dar aquele match no Tinder. Esse tipo de comportamento é, ainda que desconfortável, aceitável. Quando falamos sobre stalkers, falamos geralmente sobre um tipo de obsessão que beira o doentio e que, em muitas vezes, ultrapassa os limites da vida online versus vida real. E é aí que as coisas ficam mais assustadoras e tomam rumos desenfreados, como visto em Você, série que foi disponibilizada no catálogo da Neflix no final do ano passado.

Produzida pelo canal americano Lifetime e distribuída pela gigante do streaming, a série é baseada no livro homônimo escrito por Caroline Kepnes e nos apresenta o personagem Joe Goldberg, interpretado por Penn Badgley, um rapaz comum, com uma vida e emprego comuns que, certo dia, topa por acaso com uma garota, Guinevere Beck (Elizabeth Lail) na livraria onde é gerente.

Bonita, sexy, divertida e inteligente, Beck é o tipo de garota que muitos homens sonham, e é claro que Joe não é exceção. Só que o moço se vê obcecado por ela, mesmo tendo trocado apenas meia dúzia de palavras com a moça, num comportamento que, mais pra frente, vamos descobrir ser recorrente. Alimentando pensamentos absurdos de que a garota tenha correspondido a seu afeto, Joe decide investigar a vida online de Beck, pegando informações básicas, como endereço e lugares onde ela frequenta, além de aprender seus gostos e hobbies, tendo em mente o objetivo de usar isso a seu favor na conquista.

Não estou falando aqui, novamente, de checar naqueles aplicativos de paquera se sua crush ou interesse afetivo gosta daquele filme ou ouça aquela banda antes de um date, tá?  Isso também é aceitável (e costuma surtir efeito). O que Joe faz é vigiar e controlar insistentemente, de forma remota, a vida e rotina de Beck, usando artifícios digitais (como o celular da moça, que ele furta secretamente) e, ao mesmo tempo, sendo aquele lunático clássico que já conhecemos, que fica seguindo-a em todo lugar que ela vai.

Esse tipo de comportamento não é inovador na ficção. Seja no cinema ou na literatura, estamos sempre conhecendo personagens doentes da cabeça, com suas obsessões e manias, em várias obras. Acredito que um dos exemplos mais famosos disso é o livro (e posteriormente filme) Louca Obsessão, do mestre do horror Stephen King. Ali, vemos Annie Wilkes, uma enfermeira solitária que tem a chance de manter seu escritor favorito, Paul Sheldon, mais perto de si. E ela usa de meios escusos e extremamente violentos para isso (lembra da cena da marreta, né?), mantendo Paul como prisioneiro, usando a preocupação e cuidado como desculpas para esconder sua real motivação.

É de pequeno que se aprende a ser um stalker.

E na verdade, se a gente for pensar, esse tipo de coisa é mais comum do que pensamos. Nessa sociedade patriarcal que vivemos, o ciúme masculino é geralmente confundido como zelo, como proteção. Muitas mulheres, por socialização, vêem esse tipo de comportamento com naturalidade, banalizando uma violência que nem sempre é escancarada. Aí, na maioria dos casos, as pessoas confundem amor com obsessão e naturalizam esses atos. No entanto, atitudes obsessivas são uma demonstração clara de desequilíbrio emocional, que podem ocasionar traumas – físicos e psicológicos – para a vítima e, como em muitos casos, levar a consequências extremas, como feminicídio.

Joe, na tentativa gigante de agradar Beck e fazer com que ela se apaixone por ele, perde o controle. Invade a casa da garota, vasculha o notebook pessoal dela, checa constantentemente a troca de mensagens entre elas e suas amigas e não apenas isso: elimina tudo aquilo que ele considera uma ameaça ao possível relacionamento dos dois, e se isso significa matar e ocultar o cadáver do namorado de Beck, pra ele tudo bem. Joe perde a noção de certo ou errado por conta de sua obsessão. Na cabeça dele, ele realmente crê que esse namorado é um completo babaca e não dá valor para a garota, totalmente alheio ao fato de ele mesmo ser, de fato, a verdadeira ameaça ali.

O que mais me chamou atenção enquanto eu maratonava Você com uma voracidade incomum, no entanto, foi justamente o fato de que Joe é ocasionalmente pintado como um bom moço. Ele tem ações que demonstram verdadeiro afeto com algumas pessoas, como em seu relacionamento com o pequeno Paco (Luca Padovan), seu vizinho que vive com sua família disfuncional e é constantemente alvo de agressões físicas e psicológicas por parte de seu padrasto. Vemos que Joe realmente tem uma preocupação com o bem estar do menino e de sua mãe, e que ele entende que o padrasto é uma ameaça àquelas pessoas mas isso impede, no entanto, que ele tenha essa mesma percepção sobre Beck e sobre si mesmo.

Ao longo dos 10 episódios da temporada, vamos conhecendo a fundo a persona de Joe e, em determinados momentos, esquecemos que ele é o verdadeiro vilão ali. Suas atitudes apaixonadas nos fazem esquecer que ele é uma ameaça, e em determinados pontos chegamos mesmo a, pasmem, torcer a favor dele, numa constatação clara que reproduzimos, mesmo que sem perceber, a ideia de que obsessão e amor são a mesma coisa. Em boa parte do seriado, enxergamos apenas um cara apaixonado, tentando proteger sua amada, e nem nos damos conta de ele é um monstro obsessivo.

A Bela com medo da Fera.

Um outro recurso de roteiro que faz com que nos enganemos dessa forma é o de maximizar os defeitos de Beck, numa tentativa de diminuir a posição dela como vítima da situação, que é basicamente, maior reflexo da vida real, já que vivemos numa sociedade em que constantemente crítica e diminui a mulher, questionando seus atos e as culpando pelas violências sofridas. Beck é retratada como frágil, incapaz de tomar decisões e que, por conta disso, é fácil de ser manipulada, seja por Joe ou sua amiga (também stalker – vale dizer) Peach, interpretada por Shay Mitchell. Em alguns momentos, as mancadas dadas por Beck são tantas que chegamos a pensar que ela, de fato, é sortuda por alguém a amar tanto. Olhe que noção distorcida das coisas?

Esse tipo de recurso também já foi amplamente usado na ficção. Por exemplo, num dos livros (que também virou filme homônimo) definitivos sobre stalkers, O Colecionador, de John Fowles é graças a esse recurso que, em determinados momentos, sentimentos empatia pelo personagem principal, Frederick Clegg, que sequestrou e mantém a jovem Miranda, objeto de sua obsessão confundida com romance, em cárcere privado. Miranda é retratada como uma mulher desprezível, fútil, promíscua, na tentativa do autor de justificar as ações medonhas do personagem. Mais uma vez, é a naturalização desse tipo de comportamento.

Claro que, além disso, vemos a série toda (e o livro também) sob a ótica do personagem principal, Joe, que está narrando os acontecimentos. E como sabemos, se um personagem narra a história, significa que ele pode alterá-la ou contá-la de maneira que o favoreça em algum momento, o que também ajuda a ampliar essa sensação de que ele é o príncipe encantado, o good guy cheio das boas intenções, obscurecendo seus reais propósitos e diminuindo o dano de suas ações. O fato da história ser contada em primeira pessoa, no entanto, não diminui o ritmo da narrativa, que é bem construída de forma ágil, amarrando todas as pontas soltas e sendo densa o suficiente para que, em alguns momentos, nos fazer roer a unha tamanha tensão.

Em linhas gerais, para as discussões que ela propõe, Você é uma ótima série. Em um olhar mais desatento, pode se passar como uma produção bobinha, água com açúcar mas, quando captamos as nuances com maior atenção, é que vemos todo o terror diluído dentro da história. Ela pode não soar assustadora para alguns, porque os elementos do gênero são sutis mas, aos meus olhos, é sim um baita thriller, daqueles que te deixam com medo de pensar na obscuridade da mente humana, que te assusta ao analisar esses comportamentos obsessivos e em como eles são, de certo modos, naturalizados dentro da sociedade.

Você é uma daquelas obras de ficção que vai te deixar um tantinho mais paranoico em relação a humanidade, ou que, na menor das hipóteses, vai te deixar com vontade apenas de trancar seu Instagram. E eu sugiro que você o faça.

Every bond you break, every step you take I’ll be watching you… ♪


Niia Silveira
Niia Silveira
Francesco Dellamorte em versão feminina, mas que já leu outros livros além da lista telefônica. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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