Review 2018: #49 – A Freira

E Jesus chorou…


Decidi começar esse texto citando uma passagem da minha crítica sobre Invocação do Mal 2, outrora publicada em outro site de horror e que hoje não habita lugar algum:

“A existência da freira-demônio Valak é um atentado ao bom senso. A entidade acrescenta ao filme uma reviravolta boba e que aponta para um final dos mais clichês. Se isso já não fosse problema suficiente, é perceptível a origem puramente marqueteira da figura. Não há qualquer embasamento ou razão plausível para que Valak exista com aquela forma, que não se tornar viral. A imagem da freira sombria é marcante o suficiente para que se espalhe pela Internet, criando um status quo de ícone do horror contemporâneo, sem que exista um esforço real em sua concepção.

As campanhas de marketing não deixaram por menos, trabalhando com atores interpretando a freira em sessões de lançamento, reforçando essa ideia de um produto que deve ser vendido e popularizado. O pior de tudo é que funcionou perfeitamente. Após a ótima recepção de público e crítica, foi anunciado um filme solo envolvendo a entidade. Os próprios produtores criaram a demanda por aquele produto que inventaram e, muito provavelmente, irão faturar rios de dinheiro nos mesmos moldes de Annabelle.”

E aqui estamos, dois anos depois, cara a cara com Valak, o promíscuo, o profano, o marquês do meu *** de óculos. Já peço perdão com antecedência pelo possível vocabulário chulo, mas ele se faz necessário frente a desonestidade intelectual que esse filme representa.

Quando me recordo dos diálogos e cenas presentes em A Freira, rapidamente me vem à cabeça a imagem de um grupo de executivos sentado em volta de uma mesa redonda, confabulando. Os tubarões de hollywood comemoram animados, pois encontraram uma forma simples de multiplicar o lucro da franquia de James Wan. Mas eles não escrevem roteiros, logo precisam de alguém que o faça. O nome Gary Dauberman surge na roda.

Gary já havia roteirizado a história real de Annabelle, com seus twists sobrenaturais. Escreveu também o novo It: A Coisa. Mas Gary parecia muito ocupado, pouco disposto a criar aquela história do zero. O roteirista então se reuniu com os executivos, em volta da mesa redonda, e lhes fez uma proposta ousada: “E se criássemos um algoritmo capaz de ler e analisar o cinema de horror, produzindo assim um roteiro?”.

Nasce então o roteiro de A Freira, um amontoado de umas 100 páginas narrando as desventuras de uma noviça e um padre investigando um castelo-abadia na Romênia.

Os primeiros minutos mostram um apanhado de cenas que poderiam ter sido acompanhadas de um narrador dizendo: “Anteriormente, em The Conjuring-verse…”.  Okay, cenas do filme anterior para relembrar quem é a tal da freira, que criativo! Quase um throwback às sequências bizarras de filmes B dos anos 80.

O que se segue é um curto prólogo em que duas freiras comentam algo sobre uma sala de relíquias, que seria necessária para derrotar o mal que habita a abadia. Uma delas adentra uma sala secreta – que entendi ser a tal sala de relíquias – somente para ser atacada pelo Capiroto. Mediante o fracasso da irmã, cabe a outra freira o auto-sacrifício em forma de enforcamento, para que o mal não tome seu corpo.

“Cara, tive uma ótima ideia. Vamos colocar a freira lá no fundo, pegando o personagem por trás, vai ser massa kkkkk”

As duas principais características do filme são expostas nesse trecho.  Primeiro, “há algo na sala de relíquia para derrotar o mal” aponta para a tendência absurda de antecipar todos os acontecimentos; o resto corresponde às incontáveis ações incompreensíveis, injustificadas e os furos abismais de um roteiro 100% enlatado, desenvolvido por maquinário em uma linha de produção sem supervisão humana.

Admito que, mesmo ao fim dessa introduçãozinha merda, uma certa esperança aquecia meu peito, sem cinismo algum. Talvez pela beleza estonteante do cenário romeno, ou pela presença de bons atores como Birch – como o padre Damien Genérico – e Taissa Farmiga, de quem sou fã, no papel da Noviça Boazinha Genérica.

Eis que o padre é introduzido, caminhando lado a lado com um bispo. Em uma rápida conversa, o bispo pergunta ao amigo qual a última vez que ele havia aparecido por ali. O padre diz algo como “Faz algum tempo, logo depois que retornei daquele episódio X durante a guerra”. Essa linha de diálogo me deixou com uma pulga atrás da orelha. O personagem introduziu a si mesmo de modo tão simplório, que imediatamente saltou aos olhos a falta de esforço.

Listar a quantidade de cenas semelhantes, em que personagens entregam diálogos expositivos seria o mesmo que reescrever o roteiro – fácil, mas demorado. Mas aí, Já nos minutos finais, entendi um pouco sobre o processo de criação que originou A Freira.

A sensação é de que um apanhado de cenas de susto foram imaginadas, considerando o cenário “abadia-castelo-freira-demônio-crucifixo-exorcismo-padre” e então, a partir disso, surgiram diálogos e ações capazes de unir e ligar esses sustos com alguma coerência narrativa, da maneira mais boçal possível.

No frigir dos ovos, a ação do padre Birch se resume a correr pela abadia, fugindo de um garoto demoníaco e literalmente contar para a Irmã Farmiga o que está acontecendo por ali. Quanto mais penso, mais fico inconformado na cara de pau do roteirista em escrever algo tão cagado e na omissão de todos os envolvidos, que em nenhum momento questionou o tanto de idiotice impressa.

Em dado momento, o padre é perseguido pelo Belzebu e aprisionado por ele em um túmulo antigo. Ao sair da tumba, o cara simplesmente encontra por lá mesmo um livro antigo que narra a aparição, derrocada e ressurgimento do Mochila-de-Criança em detalhes.

Pára, fera! Tá pensando o que da vida? Qual o sentido dessa porcaria toda?

“Pô, coloca a freira lá no fundo de novo, pega nada kkkkkk”

Estruturalmente, A Feira se resume ao seguinte processo:

> cena wtf sem sentido pra justificar algo que vai aparecer depois

Ex: padre fazendo cruzadinha

> jumpscare

Ex: cena do espelho…

> acontecimento sem justificativa ou explicação:

Ex: moradores da vila odeiam a existência da abadia, mandam comida gratuitamente todo mês

> jumpscare

> cena wtf sem sentido pra justificar algo que vai aparecer depois

Ex: aqui na vila cuspimos na cara do mal!

> jumpscare

Ex: Olha pra um lado, não tem nada. Olha pro outro, BOOM!

>  acontecimento sem justificativa ou explicação

Ex: Frenchie sendo atacado por um zumbi na floresta

> jumpscare

> repete

Penso que o grande público – aquele que foi em massa apreciar Annabelle – provavelmente vai aproveitar essa experiência ultra banal e superficial. Mas ouso dizer que nem mesmo esses vão conseguir curtir, tamanha a falta de originalidade disposta em tela. A bem da verdade, os filmes da boneca diabólica nunca pareceram tão bons, se não em comparação com essa atrocidade.

Ah, esqueci de dizer, as imagens são bem bonitas.

1.5 SANGUE DE JESUS TEM PODER para A FREIRA

OLHA A FREIRA LÁ NO FUNDO OUTRA VEZ, CARALHO QUE BEM BOLADO


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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