832 – O Nevoeiro (2007)

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The Mist


2007 / EUA / 126 min / Direção: Frank Darabont / Roteiro: Frank Darabont (baseado no conto de Stephen King) / Produção: Frank Darabont, Liz Glotzer; Anna Garduno, Denise M. Huth, Randi Richmond (Coprodutores); Richard Saperstein, Bob Weinstein, Harvey Weinstein (Produtores Executivos) / Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Andre Braugher, Toby Jones, William Sandler, Jeffrey DeMunn


Em tempos aonde a notícia é que o canal Spike TV (????) deu luz verde para a produção da série de TV baseada na obra de Stephen King, é sempre bom revisitar, mais uma vez, essa gema que é O Nevoeiro, indubitavelmente um dos melhores filmes adaptados do escritor do Maine.

Aliás, até hoje, não importa se você, como eu, tenha visto duzentas vezes – sendo a primeira delas do cinema – aquele final… Ah, aquele final? Faz você se sentir sem mãe todas em todas as ocasiões, com um sentimento horrível, desolador, garganta seca, pernas bambas, pelo dos braços eriçados. Um dos finais mais controversos, niilistas, soco do estômago da história do cinema, liberdade poética do diretor Frank Darabont, superior ao final do conto – dos melhores do início de carreira de King – enxertado na coletânea “Tripulação de Esqueletos”.

Darabont sempre foi um cara que manja de adaptar uma obra de Stephen King para as telas, tanto que essa é a sua terceira empreitada, porém a primeira vez que ele resolveu meter a mão num filme de terror genuíno e não em um drama de presídio, como os anteriores: Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre. E o cara mandou muito, dosando perfeitamente o suspense crescente, morte e sangue a valer, o estopim da tensão humana, criaturas dimensionais que deixariam H.P. Lovecraft orgulhoso e claro, o fanatismo fundamentalista religioso vindo de uma Marcia Gay Harden em uma atuação digna de um Oscar®.

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A bruma assassina…

Aliás, a beata-mor Sra. Carmody, uma fiel devota das leis e punições do Deus raivoso e assassino do Antigo Testamento, é a verdadeira vilã de O Nevoeiro. Esqueçam os monstros, que só estão ali por conta de uma experiência mal sucedida dos militares tentando viajar por outras dimensões (e abrindo um portal que trouxe para nossa realidade criaturas inomináveis, como se saída dos delírios mais febris de Lovecraft, a grande inspiração de Stephen King). O medo, o fundamentalismo extremo e o poder de manipulação de pessoas incautas, ignorantes e aterrorizadas em nome de uma fé que exige expiação e sacrifício, é de assustar para valer.

King é mestre nisso: colocar pessoas comuns e díspares em situações sobrenaturais, de provação e extraordinárias. O Nevoeiro eleva esse conceito à enésima potência, muito por conta da competência de Darabont em contar essa história e a forma como filmá-la, e a sóbria atuação de todos os envolvidos (quem gosta de The Walking Dead vai perceber que muito ator preso naquele supermercado está nas primeiras temporadas da série, que foi desenvolvida para TV por Darabont). Até mesmo Thomas Jane, que é um ator do terceiro escalão – e fez aquele Justiceiro tosco, diga-se de passagem – está bem na película.

Jane é David Drayton, um sujeito que faz a arte de pôsteres de filmes (no começo podemos ver em seu ateliê um pôster que remete a ilustração de O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter e do Pistoleiro de A Torre Negra, de King – que só AGORA vai ganhar os cinemas) e durante uma noite de tempestade que atinge Castle Rock (sempre, ela), a árvore do vizinho cai e destrói sua janela, invadindo a casa. O lance é que ele e o vizinho, Brent Norton (Andre Braugher), não se dão nada bem, já rolou um processo entre eles, e tudo mais.

Ambos e mais o filho pequeno de David, Billy (Nathan Gamble) vão ao supermercado na manhã seguinte comprar mantimentos, passam por um comboio de militares indo na direção contrária, e encontram quase que a cidade toda ali, assustada após a tempestade. Não mais que de repente, soa um alarme e a cidade é tomada por um misterioso nevoeiro, que traz consigo essas terríveis criaturas dimensionais das mais diversas espécies e tamanhos, e aquele grupo de pessoas fica preso no local, junto da doida Sra. Darmody, da professora Amanda Dunfrey (Laurie Holden) e do funcionário do mercado, Ollie (interpretado pelo sempre ótimo Toby Jones).

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Por Deus, pela família e pelo Maine…

Como disse lá em cima, além de tentar sobreviver aos ataques dos monstros, há todo um clima de cisma e paranoia entre os enclausurados, como o manual de regras da situação limítrofe manda, e o perigo, além de monstros alados, moscas mutantes com picadas mortais, criaturas gigantes com tentáculos e aranhas anabolizadas que soltam teias ácidas, é o grupo religioso capitaneado pela Sra. Darmody que não vê nenhum problema em sacrificar homens, mulheres ou crianças para aplacar a ira de um Todo Poderso que mandou aquelas criaturas para acabar com os ímpios e aqueles que zombaram de seu poder durante tantos anos e, diga-se de passagem, tentaram, por meio da ciência, brincar de Deus.

A escalda de tensão é tão sufocante que ao chegar em seu absurdo clímax, onde a única forma de sobreviver é sair do supermercado e encarar aquelas criaturas terríveis (incluindo aí um quase colossal Cthulhu) ao invés dos monstros humanos, Darabont e todos os envolvidos fecham O Nevoeiro da forma mais desgraçada possível, que instantaneamente o tornou um clássico pós-moderno e IRREFUTÁVEL do horror, traduzindo da forma mais sinestésica possível o impacto de uma cena final deprimente, que permeava uma única e drástica solução (mas que se mostra completamente errada em questão de segundos depois, e aí reside todo o seu poder) e a lamúria da música “The Host of Seraphin” de Mark Isham do Dead Can Dance, acentuada ainda mais pela escolha de Darabont que durante todo o filme preferiu o uso mínimo de trilha sonora, até para causar esse baque maior.

O Nevoeiro é, para se falar de boca cheia, uma obra-prima do terror em todos os aspectos em que se é possível assustar alguém para valer. O tipo de sensação que ele causa, durante todo seu desenrolar até seu terceiro ato e a conclusão, é o sentimento mais genuíno que o cinema de horror pede, e que seus fãs merecem. Ficção científica da boa, drama humano, questões de fé, filosofia, ciência, escolhas, desespero, perda de esperança e encarar as causas e consequências de suas decisões. E principalmente, te coloca, sem pedir licença, na pele de David Drayton e compartilha contigo o seu sofrimento, sem a menor piedade.

E vou terminando esse texto agora mesmo, pois já estou deprimido escutando “The Host of Seraphin” enquanto escrevo e me lembrando daquele final…

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Chamando Cthulhu


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Van disse:

    Final mais filho da puta hahaha! Muito bom esse filme!

  2. Papa Emeritus disse:

    Uma das melhores adaptações de Stephen King pras telas. O final é sem palavras.

  3. Kull Atlante disse:

    SPOILERS
    Não sei se alguém lembra, mas no final do filme a Sra. Darmody disse que as criaturas e o nevoeiro iriam embora se sacrificassem o filho do David (ocasionando assim sua partida junto com o filho e o grupo que o acompanhava). Na parte do carro quando ele mata o grupo incluindo seu filho e vai para lado de fora desolado, o nevoeiro se dissipa e as criaturas aparentemente foram embora. Será que ela estava certa?

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