HQRROR #11 – Indepêndencia ou Mortos

Um Brasil (mais) macabro!


Na primeira década do século XIX, os ânimos europeus não estavam dos melhores. A França iniciou uma campanha de conquistas implacável, tomando para si a posição dominante da Europa Ocidental e consagrando como inimiga a poderosa Grã-Bretanha. O império francês tinha em seu comando Napoleão Bonaparte, um estrategista implacável que mostrara seu poder através da vitória de sua nação contra os austríacos.

Em meio a essa conturbada situação, Portugal opta em apoiar os ingleses e abdicar do fechamento de seus portos, contrariando o que havia sido ordenado pela França. Diante da eminente invasão que assolaria a terra do pastel de Belém, o principie regente D. João VI toma a decisão de transferir a corte portuguesa para a sua mais importante colônia, o Brasil. Entretanto, os navios portugueses que aportaram em nossas praias tropicais traziam mais que príncipes e princesas. Eles traziam a morte!

Com uma releitura histórica extremamente interessante, Independência ou Mortos é um álbum fascinante, de excepcional qualidade e cheio de bom humor. Fabio Yabu incorpora sua faceta macabra, devidamente nomeada de Abu Fobya, e nos traz um roteiro consistente que, além de ter como plano de fundo os processos que envolveram o estabelecimento do império no Brasil, é carregado de cenas hilárias edificadas em situações desesperadoras.

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Poucos são os personagens que passam pelo foco principal da narrativa sem ter seu momento de glória vivido de forma cômica. Aliás, esse é um ponto que acho muito válido reforçar: os personagens. Cada um deles possuí personalidade muito verossimilhante à leitura do Brasil colonial feita pela roteirista. Todos são caricaturais, entretanto, vemos que muitos dispõem de contradições dentro de suas construções, em prol da comicidade do enredo (o que é uma característica clássica dos trabalhos que buscam retratar as figuras histórias da corte portuguesa em sua chegada ao Brasil).

Temos um rei covarde, um mocinho que vive a clássica jornada do herói e é promíscuo, uma bela princesa apaixonada que não teme uma boa pancadaria e um sidekicker que em certos momentos toma o protagonismo das situações impostas. É muito divertido ver as cenas onde somos surpreendidos com a quebra de clichês.

Em termos de ilustração, a HQ é um soco na cara. Harald Stricker, responsável pela arte, é um ilustrador e não um quadrinista. O que significa dizer que ele trabalhou em cada um dos quadros individualmente, da mesma forma como é feito em ilustrações! Cada figura consiste em uma intrincada rede de detalhes que, sob nenhuma circunstância, podem ser percebidos em uma única leitura.

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Em cenas de batalha, onde vinte ou trinta personagens se amontoam uns contra os outros, poucos são aqueles que não tem expressões faciais trabalhadas. Os tons de preto e branco aclimatam sombriamente toda a atmosfera da história, o que gera um contraste muito significativo entre o teor jocoso da história e a trevosidade dos desenhos. Vale gastar algum tempo apreciando os quadros antes de avançar na leitura.

Lançada em 2012 pela Nerdbooks, Independência ou Mortos é um álbum prazeroso de ser visto e lido. Com uma narrativa simples, mas muito detalhada e bem amarrada, suas 160 páginas são garantia de um bom entretenimento e de ótimas risadas.

Para quem quiser estiver disposto, sugiro ouvir o podcast no site Jovem Nerd, feito pelos idealizadores do projeto, sobre o making of de toda a obra. Muito divertido e bastante instrutivo.4

 


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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