HQRROR #60 – Os Estranhos Quadrinhos de Zé do Caixão

À meia-noite encarnarei em seus gibis


Nascido em 13 de março de 1936, José Mojica Marins é, sem dúvidas, um dos maiores nomes do cinema nacional, e um dos maiores ícones do horror mundial. Mais conhecido por sua criação suprema, o coveiro niilista Josefel Zanatas, o Zé do Caixão, sua obra reúne mais de quarenta títulos para o cinema, programas de TV, marchinhas de Carnaval e, é claro, revistas em quadrinhos.

Ao longo de toda a sua carreira, Mojica, na barba e cartola de seu inesquecível personagem, estampou as páginas de mais de uma dezena de gibis. Algumas edições misturando imagens de seus filmes e a narrativa das histórias em quadrinhos, algo que ficou conhecido como “fotonovelas” e que muitos aqui não devem nem ter ouvido falar.

Zé do Caixão fez sua estreia nas telonas em 1964, em À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Após o fracasso comercial de seus primeiros filmes e um sonho onde uma estranha figura de preto arrastava Mojica para sua cova, o diretor resolveu apostar no horror, esse gênero tão popular desde sempre. O sucesso levou Mojica a desenvolver uma continuação, chamada Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver, que continuava a história do Zé do Caixão exatamente de onde o primeiro filme havia terminado se tornando um estrondoso sucesso comercial no longínquo ano de 1967. Mojica e seu coveiro de unhas compridas e cartola foram alçados ao estrelato. Mojica ganhou um programa na TV, uma marca de cachaça e o mundo.

Josefel Zanatas, o Zé do Caixão.

Naquele ano, Rubens Francisco Lucchetti, lendário escritor nascido em Santa Rita do Passa Quatro, no interior de São Paulo, em 29 de janeiro de 1930, foi apresentado ao Mojica por um amigo. O interesse de ambos pelo cinema de horror fez com que Lucchetti visse ali sua tão aguardada oportunidade para entrar no cinema. O escritor já havia trabalhado com televisão, rádio, literatura e quadrinhos, mas sempre quis experimentar a Sétima Arte pela qual sempre foi apaixonado. Após um breve encontro, Mojica convidou Lucchetti ao seu estúdio onde apresentou a ideia para O Estranho Mundo de Zé do Caixão, filme de 1968 para o qual o cineasta queria que escrevesse os roteiros. O filme deu início a uma longa parceria entre o pai do cinema de horror nacional e o papa do pulp brasileiro.

Seu primeiro trabalho ao lado de Mojica foi muito bem recebido, tornando o título do filme uma marca de sucesso. Em 1968, estreava na TV Tupi o programa, O Estranho Mundo de Zé do Caixão, série com 13 episódios roteirizados por Lucchetti. No ano seguinte, em janeiro de 1969, a editora Prelúdio colocava nas bancas a primeira edição de O Estranho Mundo de Zé do Caixão, uma revista no formato magazine que trazia duas histórias escritas por Lucchetti. “Noite Negra” trazia arte de Nico Rosso em belíssimas páginas em preto e branco. A HQ, sobre um pai que tenta desesperadamente salvar sua filha, era apresentada pelo próprio Zé do Caixão, que ainda aparecia em “carne e osso” em recortes fotográficos no meio da história como nosso próprio “Guardião da Cripta”. A segunda história, “O Fabricante de Bonecas”, era uma adaptação de um dos segmentos do filme original no formato de fotonovela, cujos roteiros também ficaram a cargo do escritor.

Capa da primeira edição de O Estranho Mundo de Zé do Caixão.

Lucchetti havia conhecido o lendário desenhista italiano Nico Rosso em 1966, logo que chegou a São Paulo. A dupla iniciou uma das mais duradouras e afinadas parcerias dos quadrinhos nacionais com algumas histórias de horror produzidas sob encomenda para a Editora Taika. Descontentes com o resultado destas HQs, a dupla decidiu criar uma revista só deles, onde poderiam criar e editar de acordo com suas ideias particulares sobre como deveria ser o horror em quadrinhos. Assim surgiu A Cripta, que trazia histórias inovadoras, sempre com os roteiros afiados de Lucchetti e a arte belíssima de Rosso. Entre as atrações do gibi, a dupla criou Nosferatu, um vampiro que, aos moldes do Garra Cinzenta, estrelaria uma aventura seriada, dividida em capítulos publicados a cada edição. Nosferatu serviu como uma espécie de laboratório para o desenvolvimento do que viria a ser O Estranho Mundo do Zé do Caixão.

O Estranho Mundo de Zé do Caixão seguiu trazendo sempre uma história em quadrinhos com roteiro de Lucchetti e arte de Nico Rosso, e uma fotonovela adaptando as histórias do filme original, sempre com roteiros de Lucchetti, por quatro edições, quando a revista passou a ser publicada pela Editora Dorkas a partir do quinto número, lançado em junho de 1969, com o diferencial de que agora as fotonovelas eram produções inéditas exclusivas para a revista.

A edição de número cinco trouxe novamente a parceria Lucchetti/Rosso, passando a arte para Rodolfo Zalla na sexta edição. A Dorkas publicou apenas duas edições, cancelando a revista em agosto de 1969. Naquele mesmo mês, a editora Sublime lançou uma revista trazendo alguns textos, uma fotonovela e uma HQ inéditas, ambas escritas por Lucchetti, com Nico Rosso ilustrando. A revista recebeu o sensacionalista título Special Sexta-Feira 13 – A Verdade Sobre a Macumba. Neste material, que foi produzido para o nunca lançado sétimo número de O Estranho Mundo de Zé do Caixão, o personagem acabou sendo substituído por uma caveira que se encarregou de narrar ambas as histórias.

Arte de Nico Rosso.

No ano seguinte, a Editora Prelúdio lançou a revista Impacto, que trazia uma história inédita escrita por Lucchetti e desenhada por Eugenio Colonnese, e teve apenas uma edição, publicada em fevereiro de 1970. Em abril do mesmo ano, Lucchetti e Nico Rosso se encarregaram das HQs da revista Zé do Caixão no Reino do Terror, da mesma editora. A revista durou apenas duas edições, sempre com textos, fotonovelas e quadrinhos, sendo cancelada em maio de 1970. No mesmo ano, a Prelúdio também lançou a adaptação em quadrinhos do cordel A Peleja de Zé do Caixão com O Diabo, do poeta Manoel D’Almeida Filho. Lucchetti e Rosso foram responsáveis de traduzir a narrativa para os quadrinhos. A editora Prelúdio também lançou o Almanaque Reprise – O Estranho Mundo de Zé do Caixão, que compilava as quatro edições da revista original publicados pela editora no ano anterior.

Nos anos que se seguiram, Mojica se viu em uma batalha perdida contra a Ditadura que quase o levou à falência e à morte. Seu filme O Despertar da Besta foi proibido pelos censores e engavetado nos porões de Brasília, dando um prejuízo gigantesco ao diretor que fez filmes de terror de menor impacto e aos poucos foi saindo de cena enquanto dirigia filmes pornográficos para se manter na ativa e sobreviver. Lucchetti seguiu sua carreira como escritor de livros e histórias em quadrinhos e iniciou uma prolífica parceria com outro grande nome do horror nacional, o diretor Ivan Cardoso, para o qual escreveu alguns roteiros na década de oitenta.

Arte de Sérgio Lima.

Após ter sua carreira destruída pela censura, Mojica se manteve afastado das telas e dos quadrinhos. Sua única aparição nas páginas de uma HQ nos anos 80 se deu em O Estranho Mundo de Zé do Caixão, publicado pela L&PM Editores em 1987. A HQ reunia alguns textos e a história “Noite Negra”, de Lucchetti e Rosso, publicada originalmente pela Prelúdio em 1969. Ivan Cardoso, diretor e amigo de Mojica e Lucchetti, abria o álbum com uma pequena introdução, além de uma entrevista com o pai do Zé do Caixão.

Nos anos 90, Mojica foi descoberto pelos americanos, e sua popularidade foi sendo resgatada aos poucos, com prêmios internacionais, coleções de seus filmes em VHS e uma volta aos quadrinhos, ensaiada em 1995, quando a Nova Sampa lançou À Meia Noite Levarei Sua Alma, adaptação para os quadrinhos do primeiro filme do Zé do Caixão, escrita e ilustrada por Laudo Ferreira Jr. A HQ contava com a lendária – e questionável – capa onde o coveiro Josefel se refestelava em um banquete de seios e nádegas.

Arte de Laudo Ferreira Jr..

Em 1996, Mojica ganhou as telas novamente, como o apresentador do lendário Cine Trash, programa das tardes da Band onde o cineasta apresentava filmes de terror dos mais variados estilos e épocas. O canal também reprisou alguns de seus filmes nas madrugadas de sábado, resgatando a popularidade do Zé do Caixão, que nesta época já adquirira contornos de figura folclórica como o saci ou lobisomem. Durante este período Laudo também produziu algumas histórias roteirizadas pelo próprio Mojica.

A primeira, uma HQ de oito páginas chamada O Enigma do Zé do Caixão, foi publicada na revista Brazilian Heavy Metal; a segunda, uma HQ de quatro páginas chamada Zé do Caixão e A Sacerdotisa, foi publicada na revista Horror Show. Uma terceira história produzida por Laudo e Viñole para um roteiro do Mojica nos anos 90 permaneceu inédita até 2017, quando a edição de número 66 da revista Mestres do Terror, da Cultura & Quadrinhos, trouxe em suas páginas a história Zé do Caixão e A Cobra Maléfica, encerrando a “trilogia” de histórias curtas escritas pelo cineasta e quadrinizadas por Laudo nos anos 90. A revista é a quarta edição deste retorno dos antigos gibis de horror da editora D-Arte. Esta HQ pode ser encontrada na terceira edição de Monstros dos Fanzines, edição totalmente dedicada à produção quadrinística de Laudo, publicada pela Atomic em 2015.

Arte de Laudo Ferreira Jr.

Em 1998, a Taquara Editorial deu início à publicação de uma minissérie em três partes, mais uma vez intitulada O Estanho Mundo de Zé do Caixão, produzida por Laudo Ferreira Jr., no roteiro e desenhos, e Omar Viñole, na arte final, adaptando para os quadrinhos Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver. Infelizmente a série não passou do primeiro número que ainda trazia uma bela capa ilustrada pelo mestre Julio Shimamoto.

Em outubro de 1999 a editora Brainstore lançou aquele que talvez seja o projeto mais inusitado envolvendo o personagem Zé do Caixão e quadrinhos. A revista infantil A Estranha Turma do Zé do Caixão trazia a história A Maldição de Jack, escrita por Alexandre Dias, roteirista que já havia trabalhado com personagens Disney e na revista do Senninha, e ilustrada por Anderson Almeida, o Mr. Guache. A HQ traz uma versão infantil do personagem, e seus amigos Vanelsinho, Fran e a aranha Tarantela, em uma aventura passada durante a noite de Halloween. Infelizmente, a revista durou apenas uma edição.

Arte de Mr. Guache. (Fonte: Guia dos Quadrinhos)

Em 2004, após um hiato de cinco anos, Zé do Caixão voltou às páginas dos quadrinhos em Liz Vamp nº1 , HQ produzida pelo Estúdio Impacto, com layouts de Klebs Jr. e arte de Carlos Rafael a partir de um roteiro da própria Mariliz Marins, filha do cineasta. A HQ conta a origem de Liz Vamp, personagem criada por ela em 2001, uma vampira mutante meio humano meio vampiro, filha de uma vampira inglesa com o próprio Zé do Caixão, que dá as caras, não só no gibi, como na capa.

Em 2008, Mojica voltou aos cinemas com o seu Encarnação do Demônio, filme que encerra a trilogia do Zé do Caixão. Para preencher a lacuna de mais de 40 anos entre Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver e Encarnação, Adriana Brunstein e Samuel Casal escreveram o excelente Prontuário 666 – Os Anos de Cárcere do Zé do Caixão, publicado pela Conrad em julho de 2008. A arte expressionista de Samuel Casal foi a escolha ideal para representar a vida do coveiro maldito na prisão e ligar as pontas soltas, preparando o terreno para o filme, que estreou no mês seguinte, em um excelente exemplo de projeto transmídia produzido no país.

Arte de Samuel Casal.

Em dezembro de 2016, oito anos depois de Encarnação do Demônio chegar aos cinemas, a Editora Marsupial, através do seu selo de quadrinhos, o Jupati Books, lançou Zé do Caixão, um belíssimo encadernado contendo as duas adaptações dos primeiros filmes do personagem produzidas por Laudo Ferreira Jr. nos anos 90. Enquanto À Meia Noite Levarei Sua Alma já havia sido publicada na íntegra pela Nova Sampa, Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver permanecia inédita, com exceção da primeira parte publicada pela Taquara Editorial. O volume ainda conta com uma HQ curta que mostra uma divertida e fictícia conversa entre Mojica e Laudo onde o cineasta usa seus poderes para convencer o quadrinista a produzir suas histórias.

Também em 2016, o Instituto HQ lançou a revista Pátria Armada – Visões de Guerra, uma antologia reunindo diversos autores nacionais dando suas interpretações ao universo de Pátria Armada, um mundo onde uma Guerra Civil estourou no Brasil durante o Golpe de 1964, levando os dois lados a usarem armas químicas durante o conflito, algo que acabou gerando os primeiros superseres brasileiros. A coletânea trouxe uma HQ com roteiro de Liz Vamp e Mojica com arte de Adauto Silva. No ano seguinte, a editora Estronho lançou À Moda da Casa, álbum em quadrinhos que adapta e expande o universo gore cinematográfico do cineasta Júlio Wong. A HQ, roteirizada por Wong e Ser Cabral, e ilustrada por Kiko Garcia, traz o Zé do Caixão como narrador e personagem, com algumas passagens inspiradas em filmes do Mojica. Estas foram as últimas revistas em quadrinhos a trazer o coveiro maldito em suas páginas.

Arte de Maurício de Souza. (Acervo de colecionador)

Como curiosidade, vale a pena acrescentar que Mojica foi satirizado por Maurício de Souza no final da década de 60 em alguns jogos dos sete erros criados pelo pai da Turma da Mônica, como José Canjica. O cineasta ainda é citado em uma tira do personagem Nico Demo, criação nada politicamente correta de Maurício. Em 1997, Zé do Caixão faz uma pequena participação no filme Ed Mort, de Alain Fresnot, que adapta para o cinema os quadrinhos de Luís Fernando Veríssimo e Miguel Paiva. O personagem ainda faz uma participação na capa da nona edição de Tiny Toon Adventures, da Editora Globo. A revista, embora não traga qualquer história com o personagem, traz uma história de “horror” com Perninha e sua turma, e uma entrevista com o cineasta.

Enquanto nos cinemas o coveiro Josefel Zanatas teve uma vida relativamente curta, aparecendo em pouco mais do que meia dúzia de filmes, sua presença marcante e seu visual impactante gravou sua imagem no imaginário popular, fazendo com que muitos não consigam dissociar criatura de criador, ignorando, inclusive, a existência de José Mojica Marins, e transformando o Zé do Caixão nessa mítica do nosso folclore. E como todo mito, Zé cresceu tanto que não cabia mais no cinema, cravando suas longas unhas na TV, literatura e quadrinhos, se tornando um dos personagens mais importantes e interessantes da nossa cultura.

Longa vida ao mestre!

Agradecimentos aos amigos Carlos Primati, Gio Mendes, Laudo Ferreira Jr. e José Aguiar.

 

Arte de Maurício de Souza. (Acervo de colecionador)

 

Arte de Maurício de Souza. (Acervo de colecionador)

 

Tiny Toon Adventures nº9 (Fonte: Guia dos Quadrinhos)


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista das HQs Carniça e Lama, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo 1 e 2. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

2 Comentários

  1. Rodrigo disse:

    Mandou muito bem no texto! Vou procurar algumas dessas publicações. Abraço!

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