Nós estamos prontos para os filmes de terror de super-heróis?

Entenda essa possível tendência para os próximos anos 


Conforme nos aproximamos do fim da década, a dominância absoluta dos filmes de super-herói sobre Hollywood alcança contornos históricos. O movimento encabeçado pela Marvel Studios e seguido timidamente pela DC não se contentando em assolar bilheterias e conquistar o público de todas as idades, também se infiltrou na Academia e arrebatou um número recorde de indicações ao Oscar na temporada 2019.

Nos últimos anos, Esquadrão Suicida levou uma estatueta por maquiagem e Logan concorreu na categoria Melhor Roteiro Adaptado, feito pra lá de incomum para um blockbuster. Esse ano, dois postulantes  da categoria melhor animação abordam o tema: Os Incríveis 2 e o genial Homem Aranha no Aranhaverso. Temos ainda Vingadores: Guerra Infinita e o recordista Pantera Negra, somando sete nomeações.

Em contrapartida, o cinema de horror permanece esnobado pelos críticos responsáveis pelas nomeações. O prêmio de melhor roteiro original para Corra! e de melhor filme para A Forma da Água, um típico filme de monstro, quase me deu esperanças de alguma mudança nesse aspecto, mas o descaso com a performance estelar de Toni Collette em Hereditário foi um balde de água fria.

Importante ressaltar que premiações do tipo não são e nunca serão um parâmetro de qualidade. Pessoalmente diria que estão mais próximas de um termômetro para o que se passa ano após ano no cinema americano e que exerce certo grau de influência sobre o público mainstream.

O desinteresse pelo terror, já recorrente nessas premiações, não corresponde ao mundo real. De um lado, temos títulos recordistas de público e bilheteria, como o It: A Coisa e a franquia bilionária Invocação do Mal. De outro, títulos provocantes que resultaram em duas tentativas frustradas de emplacar novas subgêneros – o pós-horror e horror elevado.

O que acontece então, quando esses dois gêneros cinematográficos em alta se encontram?

Chorando de alegria ou tristeza com essa ideia?

*

Filmes de terror de super-heróis não são um conceito novo, especialmente se considerarmos que esse atravessamento já é recorrente nos quadrinhos há muito, muito tempo. O Incrível Hulk, por exemplo, é claramente influenciado pelo clássico imortal da literatura O Médico e o Monstro. O Homem Morcego, por sua vez, sempre adotou o medo como arma. Já os vilões, bem, esses renderiam um livro inteiro de análises e comparações com histórias clássicas e contemporâneas do horror.

Outro exemplo inesquecível é a repercussão do boom de popularidade dos zumbis no entorno do lançamento de The Walking Dead que rendeu muitas e muitas edições com Zumbis Marvel e o arco A Noite Mais Densa, da DC Comics.

Ainda no reino dos monstros clássicos, o Lobisomem, Drácula e Frankenstein também já passaram pela Casa das Ideias, inclusive pelas mãos do saudoso Stan Lee, que fora um grande aficionado pelo gênero. A importância do horror nesse contexto é tão grande que nesse comecinho de ano, como parte da celebração de seus 80 anos de vida, a Marvel Comics lançou uma HQ inspirada em Contos da Cripta, chamada Crypt of Shadows, com três historietas de terror.

Nas telonas, já vimos alguns títulos baseados em quadrinhos como O Monstro do Pântano, Spawn, O Corvo, Blade – O Caçador de Vampiros, Constantine, O Homem-Coisa: A Natureza do Medo, Hellboy e Motoqueiro Fantasma que realizaram esse cruzamento de gêneros com resultados quase sempre negativos.

Ademais, fitas como o clássico Troma O Vingador Tóxico e a bagaceira trash de Brian Yuzna Fausto – O Pesadelo Eterno contribuíram para esse cenário de forma escatológica e grosseira, com seus “super-heróis” originais e grotescos. Impossível deixar de fora Darkman: Vingança sem Rosto, de Sam Raimi.

Talvez o ponto fora da curva seja o primoroso Corpo Fechado, de M. Night Shyamalan, que perambula entre diversos gêneros sem pertencer claramente a nenhum deles. As duas sequências derivadas desse longa serão abordadas daqui a pouquinho.

O maior dos heróis

*

Os títulos supracitados mostram que esse subgênero não é novidade, per se. Porém são títulos pontuais, que não dialogam muito entre si e não representam uma tendência, muito diferente do que está acontecendo atualmente, em que vários fatores apontam para uma corrente forte.

Penso que a alta popularidade desses dois gêneros – super-heróis e terror – são um fator relevante nessa equação. Mais importante ainda, é a existência de Deadpool, o filme de anti-herói para maiores que demonstrou para Hollywood que é plenamente possível lucrar com violência gráfica e um público limitado por idade.

A indústria de cinema americana é movida, acima de tudo, por dinheiro. A possibilidade de conquistar uma outra faixa de público, ávido por um entretenimento mais adulto e possivelmente menos interessada no tom leve de sempre, parece ter aberto as portas para isso.  O sucesso geral de Logan reforça ainda mais a existência desse nicho.

Em 2017 tivemos  Fragmentado de M. Night Shyamalan, essencialmente um longa de terror que, no último ato, se transforma por completo e termina tête-à-tête com o universo super-heróico. A sequência recém-lançada Vidro, forma uma trilogia que teve início com Corpo Fechado. Penso que essa obra de Shyamalan seja um precursor incidental dessa corrente que está por vir.

O calendário do ano passado contava com dois filmes que se caem nessa categoria: Os Novos Mutantes e Venom. O primeiro se passaria no universo dos X-Men e contaria a história de um grupo de jovens mutantes presos em um manicômio. Uma dessas mutantes, a Magia, seria interpretada pela queridinha do horror contemporâneo, Anya Taylor-Joy. Graças a necessidade de refilmagens, e a possível transação inter-estúdios, Disney comprando a Fox, Os Novos Mutantes foi empurrado para 2019.

Venom, foi um caso totalmente diferente. Abdicando inteiramente das conexões com o universo Marvel já estabelecido e sequer citando o Homem-Aranha, a fita sobre o vilão/anti-herói coloca o monstro simbiótico numa porradaria desembestada com outros monstros. Fiasco total entre os críticos, Venom explodiu nas bilheterias, superando expectativas e batendo recordes. Lembra-se daquela máxima, Hollywood é movida por dinheiro?

Um outro título pouquíssimo conhecido merece uma menção aqui. Falo da animação Batman: Gotham by Gaslight que trouxe uma perspectiva inédita ao personagem, colocando-o numa versão vitoriana da cidade de Gotham em que o Homem Morcego precisa investigar ninguém mais ninguém menos que Jack Estripador. Cabe ainda citar O Predador, empreitada que dá um ar totalmente super-heróico ao universo dos predadores.   

Professor Xavier + Fera = THE BEAST

*

Até agora contextualizei o cenário e citei os motivos. Agora é hora de dizer o que vem por aí. A razão pela qual eu creio que isso é uma tendência, não apenas uma previsão baseada nesses quatro longas pós-Fragmentado e sim nos anúncios já feitos para daqui em diante.

Seguindo a linha de lançamentos confirmados, já tivemos Vidro, logo no primeiro mês do ano. Para abril, está agendado a nova versão para os cinemas de Hellboy. Apesar do trailer apresentar um tom cômico que deixou muita gente com a pulga atrás da orelha, os produtores garantiram que ele será um filme de censura alta – possivelmente 16 ou 18 anos aqui no Brasil – com bastante violência gráfica, bem diferente do que a versão meio conto de fadas de Del Toro.

Em seguida, Brightburn – Filho das Trevas contará a história de um garotinho super-poderoso espacial que, ao contrário de Clark Kent, possui tendências bastante malignas no uso de seus poderes. Por fim, em agosto, o enroladíssimo Os Novos Mutantes deve finalmente dar as caras.

Nas telinhas, Os Rapazes deve chegar logo logo. Apesar de não enveredar tanto para o mundo do horror, violência gráfica, escatologia e desgraceira são palavras-chave nessa história que deturpa e detona o ideal super-heróico americano de várias formas. Outro título que aparecerá em formato seriado é O Monstro do Pântano, com produção executiva de ninguém menos que James Wan, o Midas dos filmes de terror mainstream recém transformado no Midas dos filmes de super-herói.  

Outro título que pode dar as caras mais pro fim do ano é o novo Spawn, produzido pela Blumhouse e que, segundo o criador, Todd McFarlane, será um filme escuro e feio, sem piadinha e sem risadas, trazendo o horror desse personagem infernal à tona. O autor inclusive acredita que o sucesso de Venom (que diga-se de passagem, foi concebido pelo traço de McFarlane) será bom impulsionador para seu filme, que também irá dirigir. Como ainda não temos sequer uma imagem promocional, é possível que o lançamento oficial fique para 2020.

Seguindo os passos de Venom, outro vilão do aracnídeo ganhará filme em breve. A produção de Morbius, O Vampiro Vivo deve iniciar nos próximos meses. Jared Leto interpretará o personagem título, um cientista que, na busca por uma cura para uma doença mortal, injeta DNA de morcego em si mesmo e se transforma em uma espécie de vampiro, basicamente uma versão Marvel do Conde Drácula.  

Entrando no campo especulativo, temos ainda outros tantos títulos que valem um comentário. Esse cenário pode finalmente alavancar a produção de Liga da Justiça Sombria, produção que anda saltando de mão em mão e quase foi realizada por Guillermo Del Toro. Esse grupo que nada de braçada no sobrenatural já foi adaptada como filme em desenho animado, em 2017, porém ficou mais no âmbito da fantasia.

Outro título que há muito anda sendo especulado e que voltou a ser motivo de discussão é o reboot de Blade. A franquia cinematográfica com Wesley Snipes acabou quase quinze anos atrás. Nesse meio tempo, tivemos uma série bem curtinha e que passou despercebida pela maioria. O próprio Snipes já revelou ter um projeto em andamento para o personagem, ao passo que o showrunner de Justiceiro disse ter interesse em uma nova versão para a televisão.

A nova versão de O Corvo quase saiu do papel no último ano, mas parece ter se perdido novamente nas gavetas dos produtores. Outro que já deu as caras e pode reencontrar um caminho para as telas é O Motoqueiro Fantasma. Ano passado, Nicolas Cage citou a existência de um roteiro com censura 18 anos, escrito por David Goyer.

Segundo Cage, o Motoqueiro é um personagem que sempre mereceu um filme com censura alta que explorasse seu lado mais assustador. Desde novembro de 2016, rumores de um novo filme ou série para o personagem andam circulando os bastidores, apesar da recente ponta do Espírito da Vingança no televisivo Agents of S.H.I.E.L.D.

Se essa popularidade se concretizar, é possível que tenhamos em um futuro próximo um filme do Cavaleiro da Lua, super herói mentalmente instável que já lidou com lobisomens e fantasmas em sua trajetória. Kevin Feige, o homem por trás da máquina Marvel Studios já confirmou o interesse em levá-lo para as telas e os fãs acreditam que a pegada mais sombria do personagem possa fazer um contrapeso ao tom leve que permeia as outras obras da empresa.

O caso mais bizarro e já bem próximo de se tornar realidade é o remake de O Vingador Tóxico. Recém adquirido pela Legendary Pictures, a reimaginação do clássico trash absoluto oitentista será produzida por dois de seus criadores, Lloyd Kaufman and Michael Herz. Soma-se a tudo isso a possibilidade de sequências desses filmes, caso bem sucedidos e teremos uma tendência clara para os próximos anos.

Menino do Inferno

*

É ainda mais interessante observarmos que o contrário também tem acontecido em grande escala, com os quadrinhos Marvel e DC voltando a entremear seus heróis com temas sombrios. Essa retroalimentação em que uma mídia influencia a outra não é novidade e depõe a favor de tudo que descrevi até aqui.

No último ano, A DC Comics lançou a saga Noites de Trevas: Metal, que colocou a Liga da Justiça em um combate mortal contra uma entidade Lovecraftiana primordial que criou diversas versões aterradoras do Batman, inspiradas nos piores pesadelos do personagem. A Marvel respondeu com a vilã Devondra, uma entidade extra-planar gigantesca com a boca cheia de tentáculos a la Cthulhu, porém com um corpo de aranha.

Outro título que assumiu o horror como estética principal foi O Imortal Hulk. A nova série do personagem abraçou suas raízes e assumiu abertamente a intenção de fazer dos quadrinhos mensais do personagem um conto de terror body horror. A recepção tem sido fantástica e, o pouco que li, já me conquistou.  A próxima grande série desse universo trás a promessa de um culto em torno do Carnificina, simbionte vermelho e caótico, que aparece nas cenas pós-créditos do filme do Venom, sendo interpretado por Woody Harrelson. As primeiras imagens mostram desenhos grotescos e aberrantes, com um teor que também remete a Lovecraft.

Da mesma forma, dois títulos recentes mostraram o horror enveredando pelos caminhos super-heróicos. Falo de Drácula: A História Nunca Contada e A Múmia, que seguiram os moldes e a escala épica das fitas de super-herói, com direito a universo compartilhado nos planejamentos. Creio que o tal Dark Universe anda meio abandonado, dado o fracasso da empreitada envolvendo Tom Cruise. Prevejo que a Blumhouse realmente trará o projeto de volta a vida, como já foi especulado, assim que filmes semelhantes renderem grana.

Como alguém que ama os dois gêneros igualmente, confesso que sinto uma empolgação grande com essas possibilidades. Ao mesmo tempo entendo o incômodo frente a saturação e o domínio constante dos heróis no mercado cinematográfico e imagino que muitos ficarão incomodados com isso. Resta ver se minhas previsões se concretizarão, mas tudo aponta para que sim.

O Cientista Especializado em Radiação Gama e o Monstro

 


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: