Kingdom: O Retorno dos Mortos-Vivos Sul-Coreanos

Zumbis além do trem para Busan


A Coréia do Sul se tornou relevante no assunto zumbis com Invasão Zumbi, de 2016, filmaço que imediatamente recebeu uma sequência animada – uma prequela, na verdade – intitulada Seoul Station. Não satisfeitos em terem originado o melhor filme sobre o tema na década, os coreanos se superaram com Kingdom, seriado original Netflix que abraça com força o título de melhor obra do gênero desde REC.

No melhor estilo Game of Thrones, a série escrita por Kim Eun-hee e dirigida por Kim Seong-hun reconstrói um trecho do período histórico conhecido como Dinastia Joseon, que se estendeu entre os séculos XIV e XIX – aqui situada no século XVI – buscando contar uma história de conspiração e luta pelo poder. Assim como na literatura de George R. R. Martin, a trama política é interceptada pela insurgência de mortos-vivos que ameaçam o reino, porém sem dragões e lobos gigantes.

Antes de tudo, é preciso exaltar a qualidade artística minuciosa na recriação desse período histórico. A complexidade do detalhamento na retratação de todos os aspectos, partindo das habitações mais pobres, até a opulência dos grandes palácios, passando pelo figurino e réplicas de objetos cotidianos é absolutamente ímpar. Não surpreende a notícia trágica de que um membro do departamento de arte faleceu dado o excesso de trabalho. Essa riqueza visual colabora para a imersão, pra lá de necessária, nessa trama que se prolonga por seis episódios, nessa primeira temporada.

No primeiro episódio, o Imperador de Joseon sucumbe à uma doença incurável, o que atrapalha os planos do clã Haewon Cho, família da atual rainha que espera um filho do Imperador  – os Lannister da história. O trono vazio, com o neném ainda na barriga, resultaria na coroação do príncipe herdeiro bastardo Yi-Chang – o Jon Snow da história toda. Na tentativa de impedir essa coroação, o clã Haewon Cho utiliza a planta da ressurreição. Graças às propriedades misteriosas da planta, o Imperador volta a vida… porém com sede de sangue e fome de carne humana.   

A transformação do Imperador resulta em uma praga de mortos vivos, na qual o príncipe herdeiro se vê diretamente envolvido enquanto o clã Haewon Cho manipula Deus e o mundo em prol de sua gana por poder, o que é muitíssimo bem elaborado e constantemente surpreendente.

O diferencial no quesito “mortos-vivos” fica por conta da “hibernação” diurna dos monstros, vagamente parecido com Eu Sou a Lenda. A variante de Kingdom coloca zumbis velozes com propagação de infecção acelerada, bem próximo ao que vemos em Invasão Zumbi. Porém aqui, eles entram num estado de… “morte”, durante o dia, no qual são indistinguíveis de um cadáver qualquer. Durante a noite os corpos se erguem e saem em disparada, atrás de carne humana.

Um dos principais pontos que elevam a série é o balanço entre a tensão diária com a iminência da ascensão dos mortos em meio ao caos político que se alastra pelo reino. Há certa semelhança com a reta final de Game of Thrones, porém Kingdom é muito mais objetivo e conciso, sem o aspecto rocambolesco tão característico do universo de Daenerys e Tyrion e sem o fanservice.

Com monstros grotescos e uma fotografia impressionante, a primeira temporada da série se encerra com um cliffhanger  de raríssima qualidade, fechando essa parte da trama no seu ponto alto e pra lá de empolgante.

Para os interessados, recomendo ainda o longa-metragem sul-coreano Rampant, do ano passado, que conta praticamente a mesma história, mas dentro de um tempo limite de duas horas. Nessa fita, o príncipe herdeiro também se vê numa disputa pelo poder enquanto precisa combater hordas de mortos vivos nesse mesmo período histórico. Claro que, dispondo de um terço do tempo da série, que tem um total de seis episódios, o filme em questão não alcança o mesmo potencial. Possivelmente, tanto o filme quanto a série são baseados em alguma obra em comum, única razão para tamanha coincidência ser possível.

Quem diria que uma série medieval sul-coreana sobre zumbis seria tão incrível?

 


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

2 Comentários

  1. Oli R Junior disse:

    A trama é baseada em um livro. Está nos créditos iniciais de cada capítulo. Raramente assisto várias vezes uma abertura, mas esta obra é fantástica e traz elementos interessantíssimos. Melhor série de zumbi em anos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: