Review 2016: #53 – Phantasm: Ravager

A onírica franquia criada por Coscarelli é fechada com louvor, mas apenas para os fãs


Explicando o verbete Fantasma: uma aparição ou espectro. Uma criação da imaginação; fantasia. Uma ilusória representação de algo. Estas são algumas das mais variadas definições que conhecemos para explicações além do caricato lençol branco voando aqui ou acolá, mas sim,  do vulto que pensamos ter visto com nossa visão periférica ou da pessoa desencarnada que simplesmente não está ali.

Muitas vezes o nosso subconsciente gera algum tipo de imagem que reflete o  modo pessoal de lidar com situações de extremo estresse, paranóia ou perda. Sendo esta visão verdadeira ou não, essa reflexão pode trazer ajuda em superar uma fase ruim ou adentrar uma jornada que pode se tornar interminável.

Sobre esse prisma ambíguo de elucubrações sobre a vida e a morte, o filme Fantasma e suas discussões intermináveis sobre seu final impactante o torna, amado ou odiado, um clássico atemporal e filosófico. Trinta e sete anos se passaram, mais três filmes aumentaram a mitologia em torno da série e finalmente o desfecho chegou para o temível Tall Man.

Ousa me desafiar, sorveteiro?!

Ousa me desafiar, sorveteiro?!

Phantasm: Ravager, o último da série e o único não dirigido por Don Coscarelli, criador da cinessérie, segue o agora sorveteiro Reggie (Reggie Bannister) pela estrada tentando encontrar seu amigo Mike (A.Michael Baldwin) e lutando com todas as forças contra o iminente mal do famigerado Homem-Alto, vivido por Angus Scrimm em sua última performance, morto no começo deste ano. Esferas, gore e mais dúvidas são postas ao longo do filme, porém, com a diferença de que a luta finalmente chegará ao fim.

Tudo começa com Reggie tendo que recuperar seu clássico Cuda ‘77 e retornando à estrada sem fim, precisando se livrar das conhecidas esferas de prata que praticam lobotomias sangrentas em quem topar pela frente. Conhecendo a história do anti-herói, já sabemos que ele conseguirá se livrar delas com certa facilidade, porém, não do mal preciso de seu oponente. Todos os elementos clássicos dos longas anteriores aqui são trazidos à tona, como a trilha sonora característica, personagens antigos e sequências que são capazes de te deixar tenso e confuso ao mesmo tempo.

A direção do novato David Hartman, que também assina o roteiro com Coscarelli, é precisa e habilidosa, com dosagens certas de humor e ação em meio a tomadas belíssimas dos cenários utilizados, sejam interno ou externos. Os mais exigentes fãs do horror podem vir a se incomodar com os efeitos CGI usados aqui – nitidamente de baixo orçamento – mas nada que atrapalhe a experiência final do longa. Hartman também mostra um controle absoluto da edição do filme – que também assina – que pode parecer desconexa mas que mantém a ambiguidade dos filmes anteriores e força o espectador a criar sua própria visão do filme, mesclando trechos dos anteriores e te prendendo até o final para que o tente desvendar. Aqui, nada é entregue facilmente.

Me dê uma beijoca, gatinho!

Me dê uma beijoca, gatinho!

Apesar da habilidade do diretor em criar um clima que una a nostalgia de revisitar o universo de Fantasma com o retorno dos personagens clássicos e dar uma pincelada de particularidade à sua obra, este é um filme específico para um único público. Realizar uma continuação para um clássico do horror é no mínimo uma tarefa árdua, ainda mais para uma sequência que há 18 anos é postergada e pretende agradar tanto os fãs do cinema oldschool quanto os neófitos porém, somente quem acompanhou a quadrilogia do icônico vilão Tall Man se deliciará com este aqui e sua definição. Com certeza não é para quem viu apenas o primeiro, por exemplo.

Aqui encontramos um Reggie velho e aparentemente cansado ao passar dos anos e ver que sua luta, até então, tem sido em vão. Afinal, como lutar com um ser onipresente? A situação o tornou um herói às avessas, que deve cuidar do irmão de seu falecido amigo e confrontar um ser que ameaça a humanidade. Seu jeito simples de ser desperta a empatia em nós, testemunhas ávidas por saber como uma pessoa será capaz de lidar com a vida, com a morte, com a amizade e o desafio de seguir em frente sem deixar transparecer o ser interior.

Deu ruim!

Deu ruim!

Toda a série faz alusões à vida e como alguém com um trauma pode encará-la de uma maneira única: os sonhos lúdicos de Mike, o sempre frustrado relacionamento de Reggie com as diversas mulheres que encontra, o diapasão que o acompanha, a teoria física de que as diversas dimensões se cruzam, a solidão. Até o nome de Tall Man, revelado como Jebediah, possui um significado considerável à trama: de origem hebraica e presente no Velho Testamento da Bíblia, o nome significa Amado Amigo.

A simbologia continua presente e se faz ainda mais significativa pois, além de ligar todas as pontas soltas dos filmes anteriores, consegue fechar a história de uma maneira única e inimaginável. Quando finalmente Reggie consegue entrar no mundo de Tall Man, o diálogo que se segue serve como um divisor de águas: ali vemos os objetivos de cada personagem.

Phantasm: Ravager funciona para cada um de uma maneira muito pessoal, fechando com uma das cenas mais emocionantes da cinessérie. Presenciamos a jornada do começo ao fim de um homem. Reggie está cansado e agora seu objetivo é outro: chegar em sua casa. E que falta que fará Angus Scrimm.

4,5 esferas de prata para Phantasm: Ravager

Toco ou não toco? Eis a questão!

Toco ou não toco? Eis a questão!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

1 Comentário

  1. Rodrigo disse:

    Parabéns pela matéria ,realmente só quem é fã para entender

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