Review 2018: #17 – Aniquilação

Um perturbador sci-fi “muito intelectual” e “muito complicado” que Hollywood esnobou


Muito se questiona sobre a qualidade das produções originais Netflix quando se trata de longas metragens. Parece que o serviço não consegue, quando se trata de um filme direct-to-streaming, produzir, bancar, escolher e/ou distribuir de uma forma tão assertiva quanto suas séries. Talvez Aniquilação seja a virada de jogo.

Não só para a Netflix, como para toda indústria cinematográfica, uma vez que mais uma vez, como fizera com The Cloverfield Paradox, a Paramount Pictures resolveu apostar no lançamento mundial direto no catálogo, ao invés de levá-lo para as salas de cinema, com exceção a um circuito pequeno nos EUA e na China, onde a empresa de Los Gatos não possui seu produto.

A decisão não é tanto estratégica e de relacionamento, e na verdade surgiu por conta das famosas “diferenças criativas”, uma vez que rolou uma briga feia entre David Ellison, financiador da Paramount, com o produtor Scott Rudin, porque o homem do dinheiro exigiu mudanças no filme após uma pobre recepção nas exibições teste, alegando ser “muito intelectual” e “muito complicado”, e bem, sabemos o nível do público que vai ao cinemas atualmente. Rudin defendeu com unhas e dentes o corte final do diretor e roteirista Alex Garland, e no fim das contas, o estúdio resolveu vender os direitos de distribuição mundial para a Netflix e cancelou seu lançamento nas telonas.

De fato, Aniquilação É um sci-fi intelectual e complicado, principalmente quando chega ao seu terceiro ato mind blowing, bizarro e perturbador, uma experiência sinestésica ousada e difícil de digerir, que dada suas devidas proporções, tem lá um quê do final de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, no sentido de incomodar o espectador numa explosão lisérgica de som, brilho e imagem, além de durante toda a projeção, investir em doses cavalares de ciência, física, biologia, genética e filosofia, mesmo que de botequim, muitas vezes.

Na produção de altíssima qualidade, com orçamento de 40 milhões de dólares, Garland – que em seu CV tem filmes como Extermínio, Sunshine – Alerta Solar, Dredd e Ex-Machina: Instinto Artificial (o qual foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original) – se valeu de uma adaptação livre da novela homônima de Jeff VanderMeer, primeiro livro da trilogia “Southern Reach”, e um elenco de estrelas, encabeçado por Natalie Portman, e que também conta com Oscar Isaac, Jennifer Jason Leigh e Tessa Thompson.

Acho que vai ter que extrair o siso…

A trama se inicia com um meteoro chegando à Terra, caindo próximo a um farol, e cobrindo toda a região, que foi denominada de Área X, com um fenômeno chamado Brilho, formando uma cúpula orgânica em plena expansão territorial. Dentro do campo afetado pelo Brilho, uma espécie de anomalia dimensional extraterrestre começa a alterar tudo em seu interior, recodificando geneticamente o DNA de plantas, animais e do grupo militar enviado para investigá-lo. Todo mundo que entrou no local, nunca conseguiu voltar.

Exceto Kane (Isaac), militar e marido da ex-soldada e agora professora de biologia, Jane (Portman), único que consegue escapar de dentro do Brilho, e está sofrendo de falência múltipla dos órgãos e intensa hemorragia interna ao voltar para casa depois de um ano de seu desaparecimento. Daí pra frente, Jane e um grupo de mulheres cientistas liderados pela Dra. Ventress (Leigh – péssima por sinal) resolvem entrar dentro da Área X e descobrir o que raios há por lá, e uma cura para o marido, numa missão quase suicida.

Com uma intrigante atmosfera de suspense – sendo que a trilha sonora de Geoff Barrow e Ben Salisbury tem uma participação primordial, principalmente no tal terceiro ato – Aniquilação, apesar de seus tropeços, de forma minimalista e cheia de mistérios vai prendendo o espectador com arroubos do mais puro terror quando descobrimos alguns efeitos da transformação genética no local, que evoca desde o melhor do terror alienígena de John Carpenter a O Enigma do Horizonte, o terror cósmico à lá  H.P. Lovecraft, a ficção científica de Tarkovsky e pitadas de body horror, incluindo efeitos devastadores nos próprios seres humanos e nos animais, com destaque para um abominável urso mutante, que dá as caras em uma escura sequência de terror primal, tenso e gráfico.

Vale nota também para o design de produção, por transformar o ambiente dentro do Brilho em uma pesadelo tétrico de fauna e flora, criando algumas deformações e assimilações deveras originais, visualmente belas e repulsivas ao mesmo tempo, diferente de tudo que tenhamos visto na ficção-científica de horror recente. E destaque para a coragem do diretor/roteirista e produtor em bater o pé, jogar o maniqueísmo às favas e manter seu plot twist final, mesmo que seja previsível – uma tatuagem denuncia – e tampouco original, e que lhes custaram uma sorte melhor nas telas grandes.

Aniquilação é uma experiência surreal interessantíssima e fora da curva num mundo cinematográfico absurdamente pasteurizado, onde segundo os manda-chuvas, nós, reles mortais, não temos capacidade de absorver filmes “intelectuais” e “complicados” e somos obrigados a ver nas telas apenas o cinemão pipoca massificado. Mas ainda bem que vivemos em uma nova realidade onde os serviços de streaming ganham cada vez mais força, e que talvez, esse velho modelo de negócio arcaico e pensamento limitado hollywoodiano de estúdios e produtores, possa estar caminhando para o substantivo que dá nome ao filme.

4 cúpulas orgânicas brilhantes para Aniquilação

 

Omnia mutantur

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

1 Comentário

  1. aladinm oliveira disse:

    “Aniquilação” promete mais do que oferece. Como sci-fi, tem o rigorismo científico dos filmes da década de 1950, além de apresentar uma intervencão militar sem qualquer planejamento tático ou lógico.
    Como filme de ação, acertaria mais se não tivesse nenhuma.
    Como drama existencial ou filosófico, não desenvolve nenhuma das personagens que apresenta e não cria vínculos com o público. Tanto faz quem vive e quem morre; e sob este ponto de vista, já dá spoiler logo no início do filme… poderia ao menos reservar uma surpresa para o final, mas nãããão!
    Sinaliza com uma fantasia “a la Jumanji”, só que séria, mas também não desenvolve a relação das personagens com os novos seres e nem explica o destino deles. Se vivem… o que acontece? Se morrem… por que isso acontece? Estavam todos “ligados em série”? Tirou da tomada deslisga todos?
    Enfim, fazendo pose de filme profundo e inteligente, só confunde quem busca grandes significados além de: A NATUREZA SEGUE SEU RUMO SEM COMPONENTES EMOCIONAIS, PSICOLÓGICAS OU AFETIVAS.

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