Review 2018: #63 – The Dark

Filme austríaco aborda um tema denso com delicadeza


O termo ‘monstro’ é dado genericamente a um ser fantástico ou criatura lendária, de aspecto e atos aterrorizantes. Dentro do gênero do terror, essa categoria é amplamente utilizada, tanto na literatura quanto no cinema, e essas criaturas são sempre apresentadas nas mais variadas formas, de acordo com as lendas e fábulas contadas, e que variam conforme época e região. No entanto, nenhum desses mitos consegue ser mais vil e assustador do que o próprio ser humano, e o austríaco The Dark reforça essa ideia.

Estreia do diretor Justin P. Lange, o filme é a versão em longa-metragem de um curta lançado pelo mesmo diretor em 2013, e foi uma das atrações do Fantaspoa 2018, festival de cinema fantástico que acontece anualmente em Porto Alegre. Com uma ambientação e ares de conto sombrio, The Dark tem um lado poético que trata, de forma delicada, de um tema muito denso.

Mina, interpretada pela atriz Nadia Alexander (da série da Netflix The Sinner), é uma jovem que, após ser estuprada e morta pelo namorado da mãe, retorna como uma entidade morta-viva amaldiçoada, que passa seus dias vagando na floresta onde foi enterrada, o que dá ao logradouro uma fama de mal-assombrado, fazendo com que poucas pessoas queiram ir até lá. Além disso, Mina se alimenta basicamente de carne humana, caçando os poucos transeuntes desavisados que circulam pelo local.

Monstros compram sucrilhos também.

Uma dessas pessoas é Josef Hofer (Karl Markovics, de O Grande Hotel Budapeste) que, fugindo da polícia, acaba encontrando uma casa abandonada na floresta, onde decide se esconder. No entanto, é atacado por Mina, que o mata e o devora. Na busca por novas vítimas, decide vasculhar o carro do homem, e acaba encontrando Alex (Toby Nichols, o jovem Danny Rand da série, também da Netflix, Punho de Ferro), um rapaz cego que havia sido dado como desaparecido, causando comoção popular. Ao invés de fazer do garoto sua próxima refeição, Mina desenvolve um sentimento de compaixão pelo garoto, e decide entender melhor a situação em que ele se encontra.

Apesar de sua aparência grotesca e de seu canibalismo, Mina não é, nem de longe, o maior monstro do filme. Ao tentar compreender a história de Alex, que demonstra um comportamento totalmente introvertido e assustado, a garota percebe a maior monstruosidade da história: o garoto era mantido em cárcere privado e vítima de constantes abusos por parte de Josef que, além disso, o cegou brutalmente. Compadecida, ela decide então deixá-lo vivo.

Sofrendo da síndrome de Estocolmo – estado psicológico onde a vítima desenvolve sentimentos como carinho ou até mesmo amor pelo agressor – Alex se vê dependente de Josef e custa a confiar em Mina. A garota, por sua vez, indo contra seu comportamento errante e sanguinário, cria, aos poucos, vínculo com Alex, talvez por encontrar nele um gigantesco sentimento de vulnerabilidade, situação que ela mesma experimentou enquanto viva.

Com suas cenas longas e seus breves diálogos, The Dark pode incomodar algumas pessoas por conta do seu jeito lento de desenvolver a história. Alguns podem até mesmo reclamar da ausência de violência gráfica, terror psicológico ou mesmo de sustos, no entanto, o filme não deve ser lido de maneira literal. A medida em que Mina e Alex vão quebrando a barreira da dor ocasionada pelos abusos, e vão criando laços empáticos um pelo outro, o espectador vai captando as nuances metafóricas escondidas na trama.

Não parece o lugar mais seguro pra se esconder…

A maneira como cada um dos personagens reage aos traumas das agressões vivenciadas por eles está ali, escancarado em seus comportamentos. Ela, inconformada com a violência sofrida e magoada, principalmente, pela omissão de sua mãe, se vê condenada àquela existência vingativa, onde fica remoendo os sentimentos negativos e desconta-os em quem quer que se aproxime. Ele, no entanto, está ainda fragilizado pela recente rotina opressora, e sentindo-se impedido de seguir em frente, por estar ainda apegado a seu abusador, foge até mesmo da possibilidade de falar com sua mãe, numa clara demonstração de negação ao futuro incerto que o aguarda dali pra frente.

Os caminhos percorridos, apesar de todos os percalços, são importantes para que eles possam deixar os traumas para trás. A experiência de lidarem juntos com as sequelas dessas agressões faz com que Alex, e principalmente Mina, aprendam valiosas lições ao longo do filme, culminando enfim num desfecho esperançoso, ainda que um tanto interpretativo, para os dois jovens.

As cicatrizes de quem sofre uma violência física, sexual ou psicológica são representadas na dupla, mas o filme também passa a mensagem  que, por mais difícil que tudo possa parecer, ainda há uma chance remota das coisas ficarem bem. The Dark prova, acima de tudo, que monstros realmente existem, e estão muito mais próximos da gente do que acreditamos. Mas também mostra que a empatia pode salvar alguém. E enxergar isso dentro de um filme num gênero particularmente negativo e genuinamente pessimista é, no mínimo, poético.

5 retratos pintados para The Dark

Procurando a luz no fim do túnel.


Niia Silveira
Niia Silveira
Francesco Dellamorte em versão feminina, mas que já leu outros livros além da lista telefônica. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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