Review 2018: #75 – Bird Box

Fique de olhos bem fechados…


A máquina do marketing da indústria cinematográfica é realmente algo a ser estudado. A toda-poderosa Netflix fez um enorme estardalhaço com o lançamento de Bird Box, sua produção original pós-apocalíptica baseada no livro de Josh Malerman, que chegou à grade do streaming no último dia 21 de dezembro.

Nas mídias out of home você encontrava a chamada do filme nos pontos de ônibus e outros mobiliários urbanos. As redes sociais foram invadidas. Até Sandra Bullock veio para o Brasil durante a CCXP participar do painel da Netflix divulgar o filme, fora o estande gigante dentro da feira de cultura pop. Tudo isso para que no fim das contas, Bird Box fosse uma das coisas mais MODORRENTAS que vi esse ano e pior presente de Natal possível que dei para mim mesmo ao assisti-lo na data da Festa Cristã.

Sempre destaco o quanto me impressiona (ainda) como um argumento com um potencial gigantesco consegue ser destruído por um roteiro medíocre e uma direção burocrática. Um colossal “NADA ACONTECE FEIJOADA” permeia todo o longa, que quase nada consegue criar atmosfera de terror, clima de suspense, preocupação com dramas humanos, construir os famigerados conflitos interpessoais inerentes aos filmes de “fim do mundo”, e muito menos envolver o espectador na sombra da dúvida sobre o porquê a humanidade foi para o vinagre e qual o real poder do agente catalisador desse terrível acontecimento. No fim você acaba nem por isso se interessando, porque paira no ar a certeza que a explicação seria esdrúxula e a emenda ficaria pior que o soneto.

Aliás, louvável que se preocupe em dar um total de ZERO explicações sobre o que é aquele efeito sobrenatural e as tais “criaturas” que enlouquecem todas as pessoas que entram em contato visual com ele, levando ao suicídio. Que por bem dizer, apenas a primeira cena em que a grávida Sandra Bullock está no carro com uma subaproveitadíssima Sarah Paulson, quando eclode o surto psicótico, é que realmente vale a pena e nos dá a verdadeira dimensão da situação e como aquilo tudo pode se tornar assustador. Mas para por aí.

Atravessando o ano sem ver esse filme

Entramos depois num loop de situações clichês das mais previsíveis e entediantes: um grupo preso dentro de uma casa com um babaca egoísta entre eles (um John Malcovich igualmente subaproveitadíssimo), precisar sair para conseguir alimento, um sujeito estranho que uma das idiotas deixa entrar na casa, grupos de humanos afetados pela mudança do status quo, e depois um sem número de obviedades durante a travessia de Sandra Bullock – que coitada, tem que levar o filme todo nas costas – com as duas crianças pelo rio, até chegar a um final piegas de querer jogar o chinelo na televisão.

Não há sequer UMA situação pungente, todos os perigos e males parecem dos mais administráveis, não se explora de fato a loucura humana e a reação em cadeia daquela catástrofe, tudo mais raso que um pires, e bem, gatos escaldados que somos em filmes sobre futuros próximos distópicos e pós-apocalípticos, não dá para aceitar de bom grado uma produção tão preguiçosa e sem sal algum, onde nem sequer a questão da obrigação de manter os olhos vendados, que poderia ser apavorante e com uma absurda carga de suspense utilizando da melhor forma a escuridão e os efeitos visuais para imersão do público, consegue ser explorada direito, e fica naquela meia-bomba. Culpa da fraquíssima diretora Susanne Bier, que nem o drama humano soube conduzir.

Vale lembrar que as inspirações para que Malerman escrevesse Bird Box, o livro, foram Fim dos Tempos de Shyamalan (COMEÇOU BEM ERRADO, já que é um dos piores filmes do indiano) e A Estrada de Cormac McCarthy (provavelmente a relação pai-filho e a questão dos grupos de humanos sobreviventes, que não chegaram nem aos pés). Mas se você quer assistir a filmes infinitamente superiores sobre o tema, nem precisa retroceder tanto assim, só ver ou rever os excelentes Ao Cair da Noite do ano passado e Um Lugar Silencioso desse ano, e aprender como se faz.

De resto, melhor ficar de olhos vendados…

1,5 periquitos dentro de uma caixa para Bird Box

Eu depois de assistir Bird Box!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

3 Comentários

  1. Leonardo disse:

    Mesmo achando que o filme poderia ser melhor em alguns aspectos (se entregar mais ao terror ou ter personagens menos irritantes), eu até gostei do filme, tendo os seus momentos.
    PS: Leiam o livro

  2. Santos disse:

    Eu gostei muito do filme, pecou um pouco na construção do personagem Gary e na cena do parto, mas de resto foi fidedigno ao livro. E tem Malkovich.
    Leiam o livro!

  3. Shirley disse:

    Gostei muito do filme, claro que ficou algumas coisas fora da película que poderia ter entrado e poderia ser mais bem colocado como a parte do parto, fora o filme é muito bom e o livro maravilhoso.

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